Por: Raquel Alves
O futebol é o esporte mais idolatrado pelos brasileiros,
isso ninguém duvida. Mas como uma moeda, apresenta duas caras: de um lado,
temos times grandiosos com talentosos jogadores ganhando uma fortuna, um
futebol que, além de ser um grande espetáculo sociocultural, movimenta uma soma
de dinheiro dentro de estratégias capitalistas, tornando-se pois, um produto a
ser consumido a qualquer custo.
Do outro lado, temos crianças, jovens e adultos que desde
pequenos ou com o passar do tempo, alimentam o sonho de ser uma estrela do
futebol nacional, um (a) jogador (a) profissional, mas já estão acostumados com
uma realidade de dificuldades no futebol amador, muitas vezes sem ganhar nada
além do que a sensação de prazer de apenas jogar com os amigos. Ao longo do
caminho de uma possível profissionalização abandonam tal sonho, pois precisam
ganhar a vida com outras ocupações que tenham um certo retorno financeiro.
Todos esses questionamentos estão presentes também no
cenário do futebol amador na cidade de Juazeiro do Norte. A professora de
Educação Física da Universidade Regional do Cariri (URCA), Alana Mara Alves
Gonçalves é uma profunda conhecedora do tema. Em seus trabalhos intitulados
“Futebol amador: campo emergente de sociabilidade” e “Uma etnografia do futebol
amador” é possível conhecer um pouco mais dessa realidade na terra do
“PadimCiço”.
As
designações mais conhecidas, referente ao futebol amador, são “racha, pelada e
bate bola”.Dentre os estudos acerca do futebol amador existem várias
classificações. Para fins didáticos, objetivando um melhor entendimento do
tema, a professora Alana Mara adotou duas designações para os jogos de futebol
amador: jogos abertos e jogos fechados.
Nos
jogos abertos, os times são formados na hora do jogo, ou seja, tudo ocorre
naturalmente: um grupo de pessoas decidem jogar futebol, “montam” suas equipes
chamando qualquer um que compartilhe do mesmo anseio e partem para o jogo,
muitas vezes sem árbitro. Já nos jogos fechados, os times que são nomeados, já
são previamente formados. Tem um proprietário ou “dono do time” que é o
responsável por aqueles jogadores, bem como é a pessoa que agenda jogos,
procura patrocínio para eventos de pequeno porte, etc. “Esse dono do time é uma pessoa que carrega o time nas costas”,
complementa Alana Mara. Assim como no futebol profissional, especialmente os
jogos fechados obedecem certas regras que dizem respeito a organização dos
times (fardamento, equipamentos... ) e um campo, para que ocorram os jogos.
Mesmo
com suas especificidades, em um dado momento, o jogo aberto e o jogo fechado
podem se mesclar: “A realidade se
apresenta muito mais complexa do que aquilo que a gente consegue falar sobre
ela, então eu percebi que, de fato, em algunsmomentos essas trocas são fluídas,
se misturam de maneira que a gente não consegue classificar se é jogo aberto ou
fechado”, diz a professora de Educação Física.
Alguns
times de futebol amador juazeirense que estão na “ativa’, participam
constantemente de competições, dentre eles podemos citar o Santos,
Flamenguinho, Paraná, Coritiba, Bragantino, Campo Grande, Cabralzinho,
Penharol, Fortaleza, Comercial, Palmeiras, União Esporte, Jardim Gonzaga, Lagoa
Seca e Vasco do Horto.
O
professor de Educação Física, Wanderlô Guedes Coimbra, mais conhecido como
“Professor Loló” relata que “algumas
equipes amadoras aqui do Juazeiro parecem serem esquipes profissionais, em
termos de organização”. Algumas delas tem convênio com o município, no que
diz respeito a questão financeira, cujo dinheiro arrecadado destina-se as
despesas dos campeonatos realizados, bem como as premiações em dinheiro, além
de medalhas e troféus. É claro que esta realidade não é válida para todo time
de futebol amador existente em Juazeiro.
Os
campos mais conhecidos na cidade de Juazeiro atualmente são: o da Micro-Empresa
(Matriz), das Poções ou o do Zé Ivan (zona rural), Campo da Boca das Cobras, o
Toinhazão (Tiradentes), Vaquejada e o Campo do 2º Batalhão da Polícia Militar.
Dentre
os vários nomes que penduram hoje como exemplo de superação no futebol amador
juazeirense, jogadores, técnicos, preparadores físicos, etc, que começaram sua
carreira no futebol amador e conquistaram a oportunidade de crescer no futebol
profissional, Loló destaca: “os irmãos
Gerladino, Nena, Nicásio, temos auxiliares e preparadores físicos como
Luizinho, Hélio, Arimatéia, que eu considero um dos maiores preparadores
físicos daqui da região, que trabalha no Icasa. O técnico do Barbalha, Washington,
o treinador Raimundinho e a gente não pode deixar de citar a nossa maior
estrela que é o Ronaldo Angelim. Todos eles são um exemplo.”
Hoje
em dia, muitas associações ou entidades trabalham com o futebol amador na
cidade de Juazeiro do Norte. As principais são a ASSEAJUNO, CADESCOR, AJUAF, LDJ,
LDJA e a ONGECEAB.
A
Associação Juazeirense de Desporto Amador de Juazeiro do Norte (ASSEAJUNO),
cujo presidente é Lourival José da Silva (mais
conhecido como Lourão), trabalha com em média 60 equipes da zona urbana, na 1ª
e 2ª divisão e master, na categoria de futebol de campo. A associação é
responsável também por organizar o “Campeonato da Cidade”, jogos que são
realizados em vários bairros juazeirenses.
A
Central de Apoio ao Desporto da Comunidade Rural (CADESCOR) atua na zona rural
da cidade. Conta com em média 40 equipes e realiza jogos de 1ª e 2ª divisão no
Distrito 1 (Palmeirinha) e Distrito 2 (Marrocos). Já a AJUAF (Associação de
Árbitros de Futebol) é responsável pela arbitragem amadora não só de futebol,
mas também de outros esportes como vôlei, handebol e basquete.
A Liga Desportiva Juazeirense (LDJ), que tem como presidente
o senhor Matias e seu filho Alan Samir, trabalha com as categorias de base, sub
18 e sub 20, realizando competições que acontecem no estádio do Romeirão e
conta com 26 árbitros.
O professor Gilberto é
o presidente da Liga Juazeirense de Desporto Amador (LJDA), e a sede é no
Poliesportivo. A LJDA é responsável por um evento destinado aos esportes de
quadra (futsal, vôlei, handebol e basquete), chamado “Copa da Integração”, na
qual participam aproximadamente 80 equipes, que no ato da inscrição, doam
alimentos não perecíveis destinados a comunidades carentes.E
por fim temos a Organização Não Governamental de Educação e Esporte Asa Branca
(ONGECEAB). Dirigida por Júlio César, a entidade promove o evento conhecido
como “Taça Triângulo”, cujo intuito é promover o esporte amador.
Professor
Loló também tem experiência no campo da arbitragem amadora e profissional. Já
“apitou” jogos entre o antigo Portuguesa (atual Crato) e o Bangu, time carioca;
um jogo amistoso do Icasa e Fortaleza; a nível nacional foi também bandeirinha
(hoje chamado de assistente) do jogo do Icasa e Vasco no Romeirão, e Flamengo e
Portuguesa no Mirandão, em Crato. Em termo da arbitragem local dos jogos
amadores, Loló assim se manifesta: “Dou
apoio a AJAF e a LDJ. Coordeno a arbitragem da região. Eu fui árbitro de 1996 a
2004. De 2004 pra cá, eu faço parte da Comissão de Arbitragem ligada a
Federação Cearense de Futebol. Eu observo algumas arbitragens a nível
profissional, faço relatórios de cada jogo que aconteceu, digo os erros e
acertos dos árbitros. Pela AJUAF, eu faço uma avaliação também em termos de
esporte amador. Nos reunimos todas as sextas, as 05:30 da manhã no estádio do
Romeirão, onde fazemos todo o questionamento da semana da arbitragem”.
Um
das tantas dificuldades que os times de futebol amador enfrentam é a questão
referente aos campos. “A maioria dos
campos são de pessoas particulares e os donos do terreno estão começando a
construir edifícios e apartamentos, daí os campos estão indo de água abaixo”,
relata professor Loló
Mas
em quesito de unanimidade, a dificuldade mais gritantes de quem se habilita a
adentrar no universo do futebol amador, é a financeira. “Quem banca a maioria dos times são os donos de time que as vezes passa
a semana toda juntando aquele dinheiro pra quando chegar o sábado e o domingo,
eles investirem em suas equipes”, diz Loló, enfatizando que o incentivo não
deve ser só o dinheiro e sim, na doação de uniformes e materiais esportivos. Alana
Mara completa afirmando que “falta
políticas públicas para assegurar que esses times tenham uma vida mais longa,
falta verba, e falta por em prática a lei de incentivo ao esporte amador”.
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