Por:
Raquel Alves
A proposta deste trabalho da disciplina de Antropologia e
Comunicação, é realizar uma descrição sistemática , analisando os elementos que
compõem a identidade e a cultura de um headbanger,
metalhead ou metaleiro (nomes que
designam um amante de Heavy Metal, um autêntico ‘batedor de cabeça’)
juazeirense, partindo de observações do movimento do Heavy Metal, bem como de
ida a campo e entrevistas.
É importante que eu analise os significados quês as
pessoas pertencentes a esse movimento (que não é só musical em sua essência,
mas também social, cultural e filosofia de vida) constroem, pois quem melhor do
que eles para me fornecerem tais explicações a futuras indagações que lançarei?
Com base no significado atual que é dado a esse
movimento, especialmente se atentando a realidade juazeirense, poderei
compreender a dinâmica e a estrutura daquela “sociedade” que é o “objeto” de
meu estudo.
Antes de ir a campo, fui revisar o referencial teórico que
servirá para a atividade prática deste trabalho, e adotei as instruções de
Malinoswi em relação à observação participante, onde você se converte, dentre
os parâmetros daquela sociedade/comunidade que você queira
estudar/compreender/analisar.
Seria necessário também se valer dos três princípios
básicos da Antropologia: o olhar, ouvir e escrever, lembrando que o objeto de
nossa análise, sob o qual o nosso olhar atento observa, já sofreu alterações a
partir da nossa escolha da maneira ou perspectiva que decidimos visualizá-lo. É
preciso compreender aquele objeto de estudo e sua cultura “em sua verdadeira interioridade”, conforme o texto.
Foi fundamental também que eu refletisse sobre essas duas
palavras de magnitude de teias significativas: identidade e cultura. A identidade pode ser um conjunto de
dados que em um documento, por exemplo, servindo para diferenciar uma pessoa de
outra. Mas por outra perspectiva, a identidade
também pode ser um conjunto de práticas, vivências e culturas, que unem diferentes
pessoas/identidades a um determinado grupo pelo qual há um sentimento de
reconhecimento e pertencimento deste grupo.
Já a cultura,
é tradição, é o povo, suas crenças, hábitos, costumes, identidades, invenção,
criação, adaptação, preservação, mistura, relações em um convívio social,
saberes, conhecimento, enfim...
O antropólogo Geertz diz que cada sociedade tem as suas
próprias interpretações e que é papel do antropólogo (ou de quem se habilita passar
por uma experiência dessas pelo menos uma vez na vida) descobrir o acesso a
essas interpretações.
Eu já havia pesquisado anteriormente sobre o tema para
fazer uma matéria sobre a “Construção e consolidação do cenário do Heavy Metal
na Região do Cariri”, mas o enfoque em minha descrição agora é completamente
diferente (conforme eu já expliquei antes).
Contudo, na matéria que eu fiz (na qual coletei dados por
meio de pesquisa, leitura e entrevistas), o importante a ser ressaltado é
entender o contexto do surgimento do Heavy Metal, que é mais do que um som
barulhento de guitarras distorcidas: é um movimento também cultural e filosofia
de vida, uma revolução social, com letras que exprimem as misérias humanas
vividas e refletidas nos contextos sociais, políticos, religiosos, etc.
A imagem de jovens cabeludos, vestidos de preto
(estampando bandas e seus slogans), assessórios variados (anéis, munhequeira,
braceletes, correntes, cintos-balas, piercings), tatuados, e alguns com cabelos
diferentes e maquiagens pesadas, causaram um certo “desconforto e choque social”. Tudo isso serve como uma espécie de
identificação/biótipo/modelo de um verdadeiro headbanger.
Em Juazeiro do Norte, o movimento surgiu tímido, por
volta dos anos 80. As pessoas que não compreendiam a real natureza do movimento
defendido, a unhas e dentes pelos jovens adeptos da região caririense, os associavam
a “pessoas sem futuro”, “um bando de drogados”. Mas esse
preconceito foi sendo quebrado, a medida do tempo.
Indagados sobre o primeiro sentimento que vem a tona
quando escutam Heavy Metal e de como a cultura headbanger está presente em sua vida,
assim responderam:
“O
sentimento que me vem a tona é tudo que diz respeito ao instinto humano em toda
a sua renegada animalidade, mas também sinto-me calmo. Contudo o que predomina
mesmo é o sentimento de ódio, de fúria... (...) O Heavy Metal é passion, é
amor, é ódio, é força e está 100% em minha vida.” (Leidivan
Rodrigues de Sousa, 30 anos, recepcionista)
“Euforia
e tristeza (...) O Heavy Metal é uma forma diferente de expressão musical que
busca traduzir a obscuridade que há dentro de todo ser.” (Francisca
Rafaelle Queiroz Alves Rocha, 25 anos, advogada)
“O
sentimento que me possui é o prazer por existir algo maravilhoso que possa
envolver tudo.” Diego Raranãa Vidal de Castro, 18 anos,
músico)
“Liberdade
(...) O Metal é para os fortes, então me considero como tal.”
(Franklyn Marcos Cordeiro Gomes, 31 anos, fiscal de perdas.)
“Sinto
vontade de chutar tudo! Metal é um estilo de vida no meu dia a dia. Não passo
um dia sem curtir um bom som.” (Francisco Esaú de
Souza Ferreira, 24 anos, agente de crédito)
“Cara,
o sentimento é de loucura, prazer, uma espécie de êxtase. (...) O Metal é vida,
liberdade. Quando em identifiquei com o movimento, eu mudei. Sou a mesma pessoa
só um pouco diferente das outras.” (Cícero Noelson
Batista de Lima, 22 anos, vendedor)
“O
Heavy Metal é uma cultura que sempre buscou a liberdade de expressão em todos
os sentimentos, quebrando tradições. O Heavy Metal está em minha vida, do
figurino à filosofia de vida.” (Hugo Leonardo Gomes
Simões, 29 anos, atendente)
Existe toda uma simbologia por trás da cor preto, adotada
pelos headbangers. Estudos
relacionados às cores apontam, por exemplo, que o preto influencia ou reflete a
psicologia humana, nossos sentimentos interiores. A cor preto é associada a
idéia de morte, sendo adotada em algumas religiões como a cor do luto. “O terror, o mistério, a fantasia,
sobriedade, autoridade, ausência, vazio, rejeição a alguma coisa, poder e
seriedade” são as outras simbologias associadas a cor preto.
Os “amantes” de metal que contribuíram com esse trabalho
relataram o que a cor preta significa para eles. Dentre os significados são: “identidade”, “a cor menos tradicional, que
hoje é convencional”, “o preto é uma cor que está sempre presente desde o
início do metal”, “é uma forma de expressa os caminhos obscuros, como também é
uma forma de se diferenciar da massa”, “seriedade... é a parte escura do ser, é
o RG do gênero, do estilo... preto é atitude!”, “traduz o peso do som nas
músicas.”
Um dos maiores símbolos enigmáticos do movimento é a “mão
chifrada”, popularizada por Ronnie James Dio, quando o mesmo era integrante da
banda Black Sabbath. É comum vermos esse símbolo, muitas vezes associado ao mal,
mas James atribui esse símbolo a malocchio,
ensinado por sua avó para espantar mau-olhado.
Para os headbangers
juazeirenses, a mão chifrada significa “um
cumprimento do gênero metal”, “grosso modo, saudação a Lúcifer”, “significa que
você segue o movimento”, “positividade nos momentos em que o headbanger está
curtindo seu som... afirmação!”, “espantar os maus espíritos”, “a bárbara idéia
de quem é livre”. (Acredito que o significado bom ou ruim das coisas
depende da intenção que atribuímos ao símbolo)
Já os termos headbanger
ou metalhead foram criados para
designar pessoas que curtiam esse gênero musical, e ganhou força à medida que o
próprio movimento se intensificava, por volta do final dos anos 70 e início dos
anos 80
.
Aqui no Brasil, o termo metaleiro surgiu durante as
transmissões do Rock in Rio de 1985 (a maioria dos headbangers de todo Brasil não curtem esse nome, porque acham que
ele está carregado de significados pejorativos, visto que foi um termo
popularizado pela jornalista global Leilane Neubarth... E no Juazeiro não é
diferente).
A própria história e evolução do movimento do Heavy Metal
já alterou o olhar e os significados que antes as pessoas lhe atribuíram e ao
que vemos hoje, uma sociedade em que a maioria das pessoas aceitam mais o Heavy
Metal e não tem mais aqueles olhar tão depreciativo ou reprovativo de antes.
Diferentes tipos de sub-gêneros (ou vertentes) derivam-se
do Heavy Metal. São mais de 15 no total (black metal, death metal, doom metal,
folk metal, glam metal, groove metal, metal alternativo, metal cristão, metal
progressiv, metal sinfônico, metalcore, power metal, speed metal, stoner metal,
trash metal, dentre outros).
Minha primeira ida a campo foi no dia 25 de outubro de
2013, no show do cantor André Matos, ex-vocalista do Viper, Angra e Shaman e um
dos principais nomes no cenário nacional quando o assunto é Heavy Metal. Abaixo
seguem as primeiras observações apuradas:
“Meu
querido diário de campo,
O
amor pelo Heavy Metal não tem idade. Jovens, adolescentes (e aborrecentes)
adultos e idosos estão na fila ansiosos, aguardando o momento de ver no palco
um dos maiores ícones do metal nacional, reconhecido também mundialmente: André
Matos.
Vestidos
de preto com suas maquiagens e assessórios exóticos (o importante é chamar atenção),
aquecendo o gogó, hidratando o corpo com drinks, conversando besteiras ao
vento, excitados com a expectativa de ser um ótimo show, sonhando acordado com
o momento de ouvir pessoalmente a(s) sua(s) música(s) predileta(s), conectados
a toda hora em suas redes sociais, postando fotos, comentários para quem esta
de “fora” acompanhe em tempo real todos os detalhes...
Velhos
conhecidos se encontram, outros se tornam amigos agora, alguns estão em clima
de azaração, e outros (assim como eu) estão solitários (sem acompanhante L
)
Algumas
pessoas que passam na Avenida Leão Sampaio, se mostram curiosas em seus olhares
penetrantes, ao ver aquele monte de pontinhos pretos espalhados no muro da casa
de show Iguatemi.
Enquanto
espero abrir os portões (que será possivelmente as 21 horas), observo e ouço
mais. Alguns apontamentos importantes merecem ser destacados, frutos de minhas
próprias reflexões e análises:
*O
sentimento de um verdadeiro headbanger reside no coração da gente, na nossa
alma e não é ostentando na exterioridade, através de modismos ou regrinhas
básicas de como ser, de como se vestir, de como se deve falar, do tanto de tatuagens
que tenho em minha pele.
Isso não faz com que a pessoa seja mais ou
menos headbanger, porque o mais importante é conhecer e viver a filosofia do
movimento. Quando falo de conhecer e viver, falo da pessoa se interessar por
estudar a história do Heavy Metal (pra não sair falando asneira!).
Muitos
que se intitulam headbangers, tem o conhecimento a nível internacional e
nacional, mas quanto a história do movimento do Heavy Metal a nível local
(região do Cariri) ainda são pouquíssimos (principalmente os jovens) aqueles
que realmente sabem de algo a respeito. Acho que você não é obrigado a saber de
tudo, mas o básico de alguma coisa já é suficiente.
Retornando
ao show: como é de praxe, atrasos ocorrem... E eis que é aberto os portões.
Junto com dois amigos, entramos embalados pela ansiedade. Já somos
recepcionados com o som da banda Glory Fate (que por sinal, é a primeira banda
mais antiga de Heavy Metal da região do Cariri). Clássicos da banda e covers
fazem parte do repertório desta noite (destaco em minhas anotações a música
Dark Side Of The Force).
Um
número considerável de amantes do Heavy Metal se juntam na frente do palco e
começam a bater cabeça. O som está muito alto e (pqp L)
eu tive que ficar um pouco mais afastada. Cansada, decidi sentar e esperar a
hora do segundo show, que atrasa novamente. Mas atrasa mesmo! E muito!!! E isso
me deixa bastante aborrecida, porque estou louca preá ouvir André Matos cantar
na íntegra o cd Angels Cry. Confesso que minha concentração foi pro beleléu,
assim que André Matos e sua banda entraram no palco, mas espero que você possa
ter conhecido um pequeno mundo de magnitude extrema a ser explorado J.”
Minha segunda ida a campo foi no dia 13 de novembro de
2013, para entrevistar também as pessoas que ia fazer compras na Loja Porão
Rock, com base em um questionário, que serviu mais para construir o texto deste
trabalho, com base nos pensamentos das pessoas inseridas nesse movimento.
No
final, diferentes
tipos de tribos se unem como uma grande família, embalados pelas músicas dos
diversos gêneros e sub-gêneros do Heavy Metal, que lhes transmitem diversos
significados, porém o mais importante dentre eles, é o sentimento de liberdade...
Em todas as instâncias
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