Fabíola
Santos Alencar[1]
Francisca
Raquel Queiroz Alves Rocha
O presente paper tem como
finalidade apresentar uma análise comparativa dos contos “O Espelho” de Machado
de Assis e “O Espelho” de Guimarães Rosa, destacando as semelhanças e
diferenças entre ambos, como também a questão da intertextualidade (relação
entre dois textos caracterizada por um citar o outro), influência (resultado de
uma relação de contato–fonte), originalidade (aquilo que é original, que traz
ou constitui inovação, novidade) assuntos esses discutidos na disciplina de
Cultura Literária.
Sabe-se que Machado de Assis
pertenceu ao Realismo e Guimarães Rosa ao período do Pós–Modernismo. Apesar de
seguirem uma linha de pensamento distinto, existe uma característica em comum
que os unem: uma das temáticas de suas obras é a questão da análise psicológica
e social, ou seja, apresentar e discutir os problemas que inquietam alma
humana.
O conto “O espelho” de Machado
de Assis, narra a história de Jacobina, um homem de aparentemente 45 anos que
discute à respeito de assuntos transcendentais e por meio de uma experiência
vivenciada em sua juventude, prova aos seus companheiros a existência de não só
uma, mais de duas almas: a interior e a exterior e de como elas podem mudar de
estado e natureza. No conto “O espelho” de Guimarães Rosa, um homem através de
seus questionamentos, discute sobre os espelhos e seus tipos: os bons e os maus
e do sue caráter de honestidade ou fidedignidade da imagem que ele reflete,
além das características intrínsecas em nossa alam que a forma reflexível no
espelho e as conseqüências da renegação dessas características.
Percebe-se as que as semelhanças
entre ambos os contos se principia pelo título das obras: O espelho, que
carrega um significado e simbologia que ultrapassa o conceito da física e vai
de encontro com o transcendental, assunto este explorado pelos contos. O
espelho é o objeto pelo qual, os protagonistas buscam encontrar sua identidade,
sua personalidade, sua alma, em busca da imagem que revele sua essência ou apenas
uma imagem que alimente seu ego. Outra notável semelhança diz respeito a
história e aos personagens-protagonistas (autodiegético).
No processo em que os
protagonistas buscam encontrar essa imagem tão almejada, ao olharem para o
espelho, eles vêem-se esfumaçados, desfigurados e depois de um certo tempo
começam a enxergar o resultado final deste processo.
Em se
tratando das diferenças, estas caracterizam o grau de originalidade existente
na obra de Guimarães Rosa. No conto de Machado de Assis, o seu sub-título
“Esboço de uma teoria sobre a alma humana” sugere que trata-se de uma
verdade científica comprovada por uma
experiência pessoal, na qual o protagonista tem tanta certeza desta verdade que
não admite réplica.
O narrador do conto de Guimarães
Rosa também relata uma experiência própria, “experiência, a que me induziram”.
Existem muitas dúvidas e questionamentos ao longo do conto, como também questões
referentes ao antagonismo existente entre a realidade e a imagem do que somos,
a verdade e a ilusão que criamos; ele busca explicações que comprovem o que ele
diz.
O processo em que se busca alcançar ou
descobrir a alma exterior, além do próprio significado que a descreve, também
diferem nos contos. Desde o início, a alma exterior de Jacobina era voltada
para o social. Quando jovem, sua alma exterior era o homem, o adolescente que
vivia intensamente. Ao ser nomeado alferes, este passou a ser sua alma
exterior, que se alimentava dos elogios recebidos de todos, principalmente de
sua tia Marcolina. Na solidão profunda e sem ninguém para “encher o gabo”, a
sua alma exterior vai se reduzindo e só o sonho lhe aliviava, pois nele reinava
a alma interior. É interessante perceber a dependência da alma interior. Mesmo
eliminando a alma exterior (o alferes), os seus sonhos eram movidos pela alma
exterior.
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Houve um dia, ao
olhar para o espelho, que ele não pode ver a sua imagem nele refletida e ficou
bastante receoso. Por mais que olhasse, não conseguia enxergar nitidamente
aquela imagem que tanto procurava, até que lembrou-se de vestir a farda de
alferes e com isso, o espelho produziu aquilo que ele queria ver: a sua alma
exterior ausente. Machado de Assis somente enfatiza a busca da alma exterior e
podemos interpretar como uma crítica a sociedade que só importava com a
aparência e os status sociais e esquecia dos valores humanos que constituem a
alma interior.
Em Guimarães Rosa, o protagonista é mais
“espiritualista” no caminho percorrido para chegar a alma interior e exterior.
Um dia ao se deparar com sua alma exterior que lhe causou medo e ódio, decidiu
procurar o que estava atrás da “máscara” que foi refletida no espelho. Ele
começou a se desfazer dos elementos que constituíam essa alma exterior, para
que assim fosse revelado a sua verdadeira identidade: caráter animal (onça),
elementos hereditários (parecenças com os pais e avós), paixões (sentimentos).
Ao se deparar com o espelho, não conseguiu
enxergar nem os próprios olhos. Tudo resumia-se ao vazio interior. Este
processo de anular elementos que caracterizam a máscara exterior acaba
“desestruturando” o personagem, que reflete o vazio que restou. Depois de
muitos meses sem enfrentar o espelho, do vazio que restou, se formou o rosto de
um menino, nascido das máscaras externas desfeitas. O rosto de menino era a sua
alma interior.
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Enquanto o personagem
de Guimarães Rosa queria se desfazer de sua máscara exterior, o Jacobina
precisava dessa máscara para sobreviver, já que a opinião dos outros era o mais
importante.
A intertextualidade está presente no conto de Machado de Assis, quando
Jacobina no decorrer de sua narrativa cita a fala de Shylock, personagem da
obra “O mercador de Veneza” de William Shakespeare. Shylock era um judeu rico e
agiota que odiava os cristãos e uma pessoa muito “apegada” ao dinheiro. Outro
momento em que nota-se a intertextualidade é ao recordar de um estribilho de
uma poesia do escritor americano Henry Wadsworth Longfellow, “Never, for ever!–
For ever, never!”,
intiutlada “The old clock on the stairs”. Percebe-se que essas
intertextualidades condizem aos acontecimentos narrados, já que na primeira vem
reforçar a idéia do que é a alma exterior (como foi dito a alma exterior de
Jacobina estava ligado as possíveis conquistas provenientes de seu novo cargo:
alferes) e na segunda demonstra a relação que o personagem tinha com o tempo e
com o “tic-tac” do relógio, que parecia ter congelado o tempo e estar
prolongando aquele sofrimento devido a ausência ou perda de sua alma exterior.
REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS:
NITRINI,
Sandra. Literatura Comparada. Edusp,
São Paulo, 2010.
ASSIS,
Machado de. O espelho– Contos escolhidos
de Machado de Assis.
ROSA,
Guimarães. Primeiras estórias. Rio de
Janeiro: Civilização Brasileira, 1974.
FERREIRA,
Aurélio Buarque de Holanda. Mini Aurélio.
São Paulo: Ed. Nova Fronteira, 2004.
http:www.anpoll.org.br/revista/index.php/rev/article/view/44/40
http:
pepsic.bvsalud.org/pdf/ide/v31n47/v31n47a15.pdf
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