Raquel Alves
Este
trabalho tem como finalidade, discutir as trajetórias e meios utilizados pela
personagem de uma história real, Elisabeth Gibert do livro Comer, Rezar e Amar,
para vivenciar uma experiência com Deus. O livro já mencionado é uma obra
bastante aclamada pela crítica com mais de quatro milhões de cópias vendidas
pelo mundo.
A princípio, destaca–se o termo
religião (já que nota–se uma influência desse tema na obra em questão, especificamente
do Budismo e Hinduísmo) que é uma manifestação de uma crença, difundida através
de seguidores que utilizam como base, livros sagrados, mandamentos, figuras
simbólicas. Independente de qual religião, esses mesmos seguidores e adeptos,
buscam seguir os princípios ditados pelo líder espiritual, ou seja, imitar
aquele modelo de vida e devoção, baseado num sistema de regras pelas quais
giram em torno de um único objetivo: Deus ou qualquer outro nome referente a um
ser supremo, conforme citação abaixo,
[...] Toda religião do mundo tem um ramo de devotos que buscam uma experiência direta e transcendente de Deus [...] Em geral, sua união com Deus acontece em um estado de meditação, e é possibilitada graças a uma fonte de energia que inunda o corpo inteiro [...] Lembro-me de [...] que o meu caminho da devoção provavelmente seria mais intelectual do que esotérico. Eu rezaria, leria livros, teria pensamentos interessantes [...] (conta 46, p. 106)
O
livro é dividido em três capítulos referentes aos três países que Elisabeth viajou
e dentro de cada capítulo há subdivisões em 36 contas, que são justificadas e
ligam–se diretamente a uma espécie de “terço”, chamados de Japamalas, objeto
utilizado para a concentração na meditação, que contem 108 contas e uma conta
maior que significa a divindade.
Se você tiver coragem, largue tudo que é familiar e confortante, e saia em busca pela verdade, seja ela interna ou externa. E se estiver preparada para enfrentar e perdoar realidades difíceis, a verdade não será retirada de você.
Liz
é uma católica não praticante e a 1ª vez que ousou se dirigir a Deus (uma das
mais marcantes experiências com Deus) foi no dia que estava no banheiro.
Clamando por uma ajuda divina, ela pede auxílio e alívio para dor que consumia
o seu ser e principalmente que se manifeste em algum sinal. Ela escutou a voz
interior que disse “Volte para cama”, afastando aqueles fantasmas e maus
pensamentos que pairavam em seu espírito conflituoso e abalado por uma crise de
identidade e por um casamento que provavelmente estava chegando ao fim.
[...] os americanos são dotados de uma incapacidade de relaxar e se deixar levar pelo simples prazer [...] muitos americanos se sentem mais felizes e realizados em seus escritórios do que em suas próprias casas [...] A quantidade de prazer que derivei desse comer e falar foi incomensurável e ao mesmo tempo tão simples [...] (conta 21, p. 47-49)
Enfocando a questão religiosa na obra, principalmente
na Índia, durante várias passagens ela discorre sobre como meditar, a
importância atribuída a esta prática, a função dos cânticos de louvores à
divindades... Segundo a psicologia
budista, a mente humana se compõem de duas partes: uma superficial, que é
formada por nossos sentidos e a outra é a profundeza de nossas mentes, que são
tranqüilas e imóveis, sendo o objetivo da meditação acalmar a superfície
perturbada. Ela sente uma grande ânsia por buscar uma experiência com Deus, por
isso parte para a Índia.
Naquele país, passa a se dedicar a
devoção e meditação, ou seja, através dessas práticas, alimentar o espírito e
assim, criar um elo com o divino. A princípio sente muita dificuldade ao
meditar, pois está atolada e atordoada por inúmeros pensamentos que
impossibilitam a concentração, para que possa conseguir construir essa conexão
com Deus. Liz freqüenta um templo conhecido como “ashram”, local onde os fiéis
adoram um guru, que no hinduísmo é um mestre que reúne discípulos e os introduz
na vida espiritual. Mesmo depois de tanto tempo, Liz continua assombrada com o
fantasma de David e nesses momentos de intensos conflitos pessoais, ela
encontra em um colega, o Richard do Texas, um amigo que através de seus
conselhos e trocas de experiências, ajuda Liz a entender a si mesma, a aprender
com os seus erros, a deixar o coração aberto para novos amores, a não ser uma
prisioneira de seus receios e sentimentos.
No budismo e no hinduísmo, as
pessoas utilizam os Mantras, que são orações que os fiéis pronunciam para
alcançar um estado de meditação ideal e que ajuda na concentração. No livro Liz
descreve sobre uma técnica budista utilizada para ampliar a meditação, chamada
de Vipassana, que parte do princípio de observar o funcionamento da mente do
indivíduo, a moldagem de seus pensamentos, na qual o praticante permanece
parado em uma certa posição, que depois de muito tempo, incomoda. Esse
“incômodo” é a chave–mestra dessa prática, pois esse incômodo é manifestado em
várias situações de nossa vida e se não aprendermos a lidar com este
desconforto, sempre nos esquivaremos de nossos problemas, sem nunca ousar
resolvê–los.
A autora enfatiza a questão da devoção, da
fé e Deus, definindo e interligando os pontos que constituem o significado de
cada um e relacionando–os à nossa vida e como nós devemos acreditar nessa força
suprema que dá o verdadeiro sentido a vida, manifestada nas pequenas coisas.
Toda manhã, antes de meditar, Liz mantém uma conversa com Deus, que chega a
durar alguns minutos, mas possuem um significado imenso em sua vida. Apesar de
fazer uma prece aos céus, ela tem consciência que parte da realização desse
pedido partirá de seus próprios passos, ou seja, que ela também é uma agente na
busca por uma graça e que se ela não se permite buscar ou lutar por aquilo que
acredita, o trabalho de Deus estará perdido. Também descobre no silêncio, uma
arma poderosa para aquietar a alma. Da índia, Liz levou consigo boas
recordações e ensinamentos, que influenciaram no modo como ela vê a si mesma.

Há algum tempo atrás, a trabalho, Liz conheceu
Ketut Liyer, um xamã, “espécie de sacerdote que recorre a forças ou entidades
sobrenaturais para realizar curas, adivinhações, exorcismos, encantamentos”
(AURÉLIO, 2004, p 760). Ketut vivia em Bali, Indonésia. A ele, confessa esse
desejo de entender e conhecer Deus, que lhe aconselha a ver o mundo através do
coração, para que assim consiga enxergar Deus. E na volta à Indonésia, o último
país de sua viagem libertadora, ela permite que o amor faça parte de sua vida
novamente. Ela conhece o brasileiro Filipe, com que compartilha momentos de
felicidade, em meio algumas dúvidas que ainda insistem em permanecer em sua
mente e em seu coração. Vale destacar no filme uma frase na qual Filipe explica
a Liz o que o equilíbrio tem a ver com o amor “Equilíbrio é não deixar que lhe
amem, menos do que você se ama”.
Finalmente, depois de todas essas
vivências, conclui–se que a busca por uma experiência com Deus consiste em vê
seus em seus erros a oportunidade de aprender, a perdoar a si mesma para que
veja o mundo com outros olhos, a deixar que a força do amor reine em seu corpo,
mente e espírito, e através da devoção, que é manifestada no amor e na
meditação, é que Liz pode abrir portas antes trancadas e se permitir manter um
elo com Deus, deixar a divindade residir dentro de você. Assim, ela se libertou
dos fantasmas do passado e seguiu em frente, mais confiante e crente que a vida
continua, que ela podia se entregar ao amor sem medo de ser feliz.
REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS:
GILBERT,
Elisabeth. Comer, Rezar e Amar. A
busca de uma mulher por todas as coisas da vida na Itália, Índia e Indonésia.
Rio de Janeiro: Objetiva, 2009.
FERREIRA, Aurélio
Buarque de Holanda. Mini Dicionário
Escolar Aurélio. Rio de Janeiro,
Editora Nova Fronteira, 2004.
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