Coldland era uma cidade
pequena, mas acolhedora. Nossos novos vizinhos me pareciam pessoas bem legais e
nos receberam de braços abertos... Braços abertos... Comecei a suar frio,
receosa da recepção que meus “novos colegas” fariam. Eu não sou boa em fazer
amigos, acho que o problema não sou eu. Não sei explicar qual seria o motivo do
repúdio que a maioria das pessoas sentiam por mim. Já estava acostumada a viver
na solidão, mergulhada em livros ou assistindo algum programa de TV idiota.
Essa era a minha vida. Meus pensamentos foram interrompidos pelo barulho que o
pessoal fazia no ônibus que parou na nossa frente. Eles pareciam detectar os
rostinhos das novatas... e principalmente de novatas assustadas... Quer dizer,
só havia eu.... Tessy parecia não se importar com os olhares. Subimos no ônibus
e as pessoas não paravam de nos olhar e cochichar. As cadeiras estavam ocupadas
com livros e mochilas, mas um rapaz cedeu o seu espaço para que minha irmã
sentasse. Eu fingia que não estava nem aí, aparentemente apreciando a paisagem,
enquanto o garoto flertava com minha irmã.
“Ei
gatinha, como você se chama?”
“Tessy,
e você?”
“Noam. Prazer em te conhecer. É o seu 1º dia de aula, não
é?”
“É.
Estou super entusiasmada. Conhecer novas pessoas significa novas experiências
para mim. Eu não sou tão antissocial como a minha irmão aí.” Tessy apontou o
seu dedo na minha direção. Eu tentei sorrir, mas eu estava muito envergonhada
com aquela situação. Eu percebei que ela falava mal de mim para o desconhecido,
ou seja, Tessy já começava a me “queimar” antes do tempo.
“Ela
nem parece ser a sua irmã. Você é muito mais bonita e diferente dela.”
“É
o jeito estranho dela que espanta os garotos.” Agora a conversa mudava de rumo.
Críticas e mais críticas aumentavam a teia de aranha que minha irmã construía
com a ajuda de seu amiguinho Noam. Para evitar uma briga em pleno 1º dia de
aula, resolvi ouvir música e deixar o tempo passar. Enquanto ouvia música, eu
adormeci e quando o motorista freou, eu só não voei ônibus à fora porque
acordei e rapidamente pude me segurar na cadeira do motorista. Todos ficaram
zoando da minha cara. Era o meu 1º ‘Mico Oficial em Coldland’. Minha irmã nem
ligou para mim e mantinha o ritmo de sua conversa com Noam tranquilamente.
“Chegamos
querida. Qual é a sua turma?”
“É
a 163.”
“Não
se preocupe. Eu me comprometo em ser o seu guia turístico da High Scool Coldland.”
“Ei,
Vilinha, tchau, maninha querida.” Agora foi que Tessy percebeu que eu também
estava no ônibus? Meus olhos ultra penetrantes foram a única resposta que ela
obteve. Como ela pode ser tão falsa, tão cara de pau? Ela fala mal de mim na
minha frente, ‘queima o meu filme’ no ônibus, ri do meu mico e ainda tem a
audácia de fingir que tudo está bem?
“Droga!
Tudo isso é uma droga!” Eu resmungava baixinho quando uma garota me empurrou.
Só me faltava essa...
“Ei
garota, saí do meio, porque Kate White vai passar e
você está bloqueando o espaço.” Eu queria ter dito ‘Eu não sabia que ela
ocupava tanto espaço assim. Talvez eu precise perder alguns quilinhos ou você
precisa usar óculos’, mas como sempre, a covardia é o meu ponto forte.
Simplesmente eu me afastei e fui localizar o meu armário.
“Olá
novata. Não liga para a Suse. Ela vive feito um
cachorrinho, fazendo tudo que a 1ª dama Kate White manda. Pobre coitada! Ela
sonha que um dia Kate vai coloca-la no grupo de Líderes de Torcida... Aliás,
meu nome é Lili. Lili Curteeman.”
“Legal.
Meu nome é Ávila.”
“Você
é daqui?”
“Não.
Sou de International Falls. Nos mudamos devido ao
trabalho de meu pai. Ele foi nomeado xerife dessa cidade.”
“Seu
pai é o xerife? Nossa, que irado! Você pode fazer tudo que for de ilegal e não
ser presa!”
“Se
você diz, quem sou eu pra dizer que não?”
“Qual
é a sua turma?”
“Sala
261. 1ª aula: História”.
“Isso
é uma baita coincidência! Eu também sou da turma 261. Acho que seremos boas
amigas!”
“Ok...
Se não se importa, eu poderia ficar um minutinho sozinha? Eu preciso fazer uma
ligação muito importante.”
“Certo,
sem problemas. Eu só vou ficar ali no corredor. Fico te esperando.”
“Tá
bom.” Nossa! Essa menina estava me sufocando! Ou talvez eu estivesse
impressionada por, pela 1ª vez, alguém querer ser minha amiga, sem nem me
conhecer direito? Ela me parecia ser uma pessoa legal, que assim como eu,
também era excluída do ‘mundo social’ e como era o início do ano escolar (nas
High School dos EUA, geralmente as aulas começam em agosto ou setembro), ela
precisava se aliar a alguém para não começar o ano escolar tão excluída assim.
Fui ao banheiro, para tentar arrumar o meu cabelo selvagem, que parecia a juba
de um leão. Cansei de lutar contra ele e no final tive que prendê-lo. Pensei em
tirar os óculos para ver se talvez mudaria alguma coisa, mas eu não iria
conseguir enxergar nada, então era melhor evitar uma ‘Topada Espetacular’ e
acabar caindo no Youtube como ‘O mais novo mico de Ávila Kurts’.
“Ei
novata, aqui, aqui.” Eu acenei de volta e fui em sua direção. Entramos na sala
e todos me olhavam atravessado, principalmente porque eu sentei ao lado da
estranha Lili, tão estranha quanto eu.
“Acho
que se você estivesse vestida melhor e soltasse esse cabelo, ficaria mais
engraçadinha.”
“Obrigado
pela parte que me toca em seu comentário.”
“Eu
não quis te ofender, de jeito nenhum. Só acho que você tem potencial, quer
dizer, eu consigo enxergar além de sua alma e vejo que você é muito mais do que
aparenta ser. Parece que tem medo de tirar essa máscara e mostrar quem é
realmente.”
“Dá
pra parar, Lili? Senão eu vou sentar em outro lugar. Você fala demais e quando
liga esse botãozinho, não desliga mais.” A porta foi aberta abruptamente, e eis
que surge a professora responsável pela 1ª aula.
“Ok,
alunos, a festa acabou. Eu sou Mary William, sua
professora de História. Alguns já me conhecem, outros não... Bem, temos aqui
uma celebridade entre nós. A filha mais velha do nosso xerife John Kurts. Como se chama, querida? Eu me lembro que a mais
novinha é a Tessy, mas o seu nome, eu não consigo lembrar....”
“Eu
também não consigo lembrar do seu nome.” Saiu essa ‘indireta’ e eu não me
arrependi. Os alunos zoaram da professora, dizendo “Vai de novo”, mas ela não
se importou. Apenas sorriu para mim, um sorriso mais falso do que o da minha
irmã quando eu perguntava “Essa roupa tá boa?”...
“Ok.
Vamos começar a aula de hoje falando sobre a Revolução Americana de 1776.”
“Sim
senhora!” Responderam os alunos em um coro estrondeante. Quando todos saíram, a
professora Mary agarrou o meu braço com força e sussurrou em meu ouvido:
“Não faça mais gracinhas, senhorita Kurts. Não
tente me desmoralizar na frente de meus alunos. Quando eu fizer uma pergunta,
apenas responda. Seja clara e direta.”
“Desculpe,
se é isso que você quer ouvir.” Enquanto ela me repreendia, a ‘Miss Coldland’
entrou na sala.
“Ah!
A mosca morta é dessa sala, Suse...” Falou Kate para a sua amiguinha. Mary
virou-se para as duas e desferiu um sermão pior do que o meu.
“Senhoritas
White e McLack... Por que vocês faltaram à aula hoje?”
“A
minha falta é justificada, senhora William. Estava em uma reunião para
selecionar as novas meninas para o meu grupo de líderes de torcida. É de
extrema importância começar desde cedo a organizar, porque o campeonato
estadual vem aí...”
“As
aulas mal começaram e vocês já pensam nisso? Faltam 3 meses, meninas. Não usem
esses tipos de justificativas para se ausentar de minhas aulas. Estão
avisadas.” Kate White ficou vermelha de raiva, com vontade de dizer umas poucas
e boas para a professora Mary, mas se conteve. Sua amiga Suse parecia inconformada
com a bronca ou envergonhada porque eu estava lá e ouvi tudo. A senhora Mary
pegou o seu xale e saiu. Ficamos nós três na sala e logo as duas saíram,
soltando fumaças pelas ventas. Lili estava no refeitório se entupindo de comida
quando eu cheguei.
“O
que aconteceu? O que a professora Mary te disse?”
“Que
eu não a desmoralizasse na frente dos alunos e provavelmente na próxima vez que
eu fizesse tal ato, iria notificar aos meus pais. Que ridículo!”
“Não
liga, não. Ela é meia desmiolada. Tem dia que ela é um anjo, outros que é
melhor ficar longe dela. Aquela carinha de boa senhora é seu disfarce. Tome
cuidado. Ela é uma cobra peçonhenta.”
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