Pelo menos hoje tinha uma cadeira vaga.
Me sentei e fiquei ouvindo música, já que Tessy se acomodava em outra cadeira,
o mais distante possível e ficara grudada com o seu colega Noam. Enquanto íamos
para a escola, de repente, parecia que alguém havia sussurrado em meu ouvido o
meu nome “Ávila... você é a...”. Não consegui entender o resto, devido ao
barulho que a galera fazia ao avistarem a ‘Musa de Coldland’ com o seu novo
carro importado. Entre os comentários, tais como: “Nossa! Ela é tudo de bom”,
disse um rapaz. “Ela já trocou de carro duas vezes só no início do ano”, falou
uma menina que mordia os lábios de inveja. “Como é bom ser rica. Não é preciso
andar nesse aperto”, resmungou outro menino na minha frente. Mas o que eu
queria saber era quem havia falado comigo. Do meu lado, uma menina devorava uma
barra de chocolate. Mentira. Eram duas barras. Atrás de mim, um casal de namorados
que não estavam nem aí pro restante de nós. Então quem foi capaz de falar tão
alto, a ponto de superar o volume 30 do meu mp4? Superou a voz de Tobias
Sammet, na música Dying for an Angel? “Ávila... você é a..”. Eu sou o que? Isso
com certeza foi um efeito da auto-dosagem de medicamentos ou efeito da pancada
na cabeça. Definitivamente, eu não estava bem. Ao descer, me separei de Tessy,
que fez um sinal de até logo e sumiu. Logo na porta da sala de aula, estava
Lili, que se assustou ao me ver.
“Santo
Céu! O que houve com você? Foi atropelada por búfalos selvagens?”
“Eu
sei, estou horrível, né?”
“Não,
tonta. Eu digo pelo curativo na sua cabeça, essa faixa aí. O que houve? Você
nem veio ontem... Fiquei boiando na escola, tentando conversar com um e como
outro, mas ninguém prestava atenção no que eu dizia.”
“Desculpe,
mas eu sofri um acidente de ônibus. Você assiste telejornal? Ouviu falar a
respeito de um motorista de ônibus da linha 26 que morreu recentemente?”
“Ouvi
algo assim no noticiário. Não sabia que você havia se machucado.”
“Só
foi um corte de nada. O médico foi quem fez um assombro danado, mas estou bem,
né?”
“É.
Isso é o que vale. Vamos entrar que o Freddy Krueger está
chegando.” Nos sentamos e ficamos observando o alvoroço que os babões de Kate
White faziam. Só faltavam cair no chão, como um tapete vermelho e esperar que
ela pisasse neles.
“Ela
pensa que é muito importante, que é alguma celebridade de Hollywood.”
Lili me disse, mas preferir não prestar
atenção à essas coisas. O que eu
agradeci aos céus foi a rapidez com que as aulas de hoje acabaram. Já era a
hora do intervalo. Kate, Suse, Noam, Tessy e outros desconhecidos estavam
reunidos em várias mesas do refeitório e como sempre, isolados do restante dos
outros grupos. Notei que falavam de mim, porque quando falam de você e apontam,
é porque é fato: estão te ‘tesourando’ pelas costas, pela frente... E uma das
pivôs disso era a minha própria irmã! Fiquei pensando em qual segredo obscuro
ela estaria revelando, entretanto, eu nunca havia confessado nada de minha vida
particular a ela. Acho que meu pai sabia de mais coisas sobre mim, do que ela
mesma. Porém, e se ela tivesse falando de ontem? Da visita do policial super
gato, o Lin? Se ela contasse como me desmoralizou na frente dele? Isso não!
“Você
está pensativa demais. Pare de se importar com o que os outros possivelmente
falam de você. Eu mesmo já me acostumei com isso. Se minha vida é tão
importante, a ponto de eles perderem o tempo de suas vidas para observar a
minha, é porque eu sou importante para eles.”
“Espere
um minuto para eu raciocinar... Uhhh, entendi!” O intervalo terminou e fomos
para a sala. Kate White ficava soltando piadas indiretas e diretas para mim, do
tipo “O espantalho assombrou o gatinho”, “Tire essa máscara de Halloween”. Uma
menina que estava do meu lado, balançou a cabeça para mim, como se fosse um
sinal de reprovação pela atitude infantil de Kate. Outros riam das piadas, na
certa esperando algum favor em troca. Ela só parou de me perturbar, quando uma
professora chegou. Essas aulas foram
insuportáveis ou seria a presença de Kate? Levantei as mãos para os céus quando
o sinal tocou e eu pude sair daquela escola.
“Você
não vai esperar sua irmã?”
“Nos
separamos hoje. O cordão umbilical foi cortado. Lili, eu pretendo visitar a sua
casa, se você não se importa...”
“Mas
é claro que vai ser um enorme prazer! Nossa, se eu soubesse que a filha do
xerife iria visitar a minha casa, eu tinha pedido para a minha mãe fazer um
bolo de chocolate e nozes que não tem pra ninguém! Vou ligar agora mesmo para
ela vir nos pegar.”
Enquanto
Lili ligava para a mãe dela, eu senti algo estranho. Não sei descrever essa
sensação, a única coisa que eu posso dizer é que meu coração foi de zero à mil.
Parecia que ele estava prestes a sair pela boca. Respirei fundo, mas as batidas
agitadas do meu coração não cessavam. Lili não percebeu nada, pois estava
preocupada em dar orientações para sua mãe, do tipo ‘Não me chame por
apelidos’, ‘Não me faça vergonha’ e outras coisas, que não me atentei a ouvir.
De repente, parecia que o cheiro
daquele desconhecido tinha invadido a minha mente, aquele cheiro marcante... Será que ele poderia estar por perto?
“Onde
você vai?”
“Procurar
uma pessoa. Quando sua mãe chegar, dê um toque pro meu celular, aqui está o
número.” Arranquei uma folha do meu caderno e anotei o número do celular que
meu pai havia me emprestado, já que o meu havia sido destruído na colisão do
ônibus. Andei pelo quarteirão do colégio. O cheiro
deixava uma trilha invisível, que eu conseguia ver, literalmente falando.
Quanto
mais eu andava, mais eu sentia que estava próxima de encontrar o desconhecido
daquele dia. Foi então que a trilha terminou, em frente a uma casa rústica e
assustadora. Algo estranho também aconteceu naquele exato momento: não sei se a
mãe de Lili demorou a chegar ou se eu me desviei dos arredores da escola.
Tentei observar tudo que estava ao meu redor e do nada, um cachorro super
enorme e furioso, partiu para cima de mim. Eu fiquei paralisada naquele lugar.
Por mais que eu quisesse correr, o meu cérebro não processava o comando e
minhas pernas permaneceram paradas. Eu quis gritar por socorro, mas de meus
lábios não saíam nada. Uma onda de medo se espalhou pelo meu corpo. Foi então
que o cheiro misterioso se
intensificou ao meu redor, eu fechei os olhos porque o cão feroz disparou em
minha direção, com sua boca aberta, pronto para devorar o seu banquete. O cheiro me envolveu por completo.
Eu
não sentia os passos do cachorro e decidi abrir os olhos. O que eu vi, foi a
coisa mais linda de todo mundo: o rapaz misterioso. Ele era um verdadeiro Apolo
na Terra! Fiquei sem fôlego ao ver o cão do seu lado, tão quietinho, tão dócil,
parecendo um animal domesticado. Como posso descrever tamanha perfeição divina?
Desculpe-me pela descrição singela, mas é só o que posso fazer: o rapaz era alto, acho que quase da mesma estatura de Lin, tinha a
pele escura e brilhante, cabelos pretos e lisos que tocavam seus ombros largos,
olhos azuis como o imenso oceano, que me convidava a entrar em seu
mundo. Apesar dessa beleza, algo de assustador transparecia em seu rosto. Suas
vestes negras refletiam uma enorme tristeza interior. Eu podia sentir isso.
“Desculpa
garota. Fui imprudente. Deveria ter me certificado de que este animal estaria
preso. Minhas desculpas.”
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