Capítulo 5- Mapa

"Você está diferente", disse Tom, ao mesmo tempo que tocava em meus cabelos. Isso me causou arrepios incontroláveis.

"Você deve ter bebido um pouquinho. Eu sou a mesma",

"Deve ser esse cabelo solto, Beka"

A maioria das meninas que passaram na vida de Tom, morriam de inveja de mim, porque, por mais que eu não dividisse a cama com ele, nós dividíamos outras coisas, que julgo serem mais importantes do que simplesmente transar. Nos conhecemos ainda quando éramos crianças inocentes. Ele me protegia dos meninos que queriam zoar comigo, até que ele cresceu e começou a zoar de mim também.

Nossa relação mudou nesse período. Éramos mais amigos somente na hora da prova, quando ele estava em apuros e queria uma pesca. Voltamos a ter uma relação de amizade ainda maior, quando meu pai morreu. Ele era quase que um pai para Tom também, e foi nesse exato momento em diante, que nossa irmandade criou laços maiores. Não vendo como mulher e sim como uma irmã mais nova, todo qualquer sentimento sexual entre nós ficou adormecido por enquanto...

Afinal, quais atributos de uma verdadeira mulher eu tinha? Sempre me questionava quando as ex-namoradas de Tom insistiam em querer comprar briga comigo. Eu era tão patética, ao ponto de aceitar os deboches e ofensas de todo mundo e concordar que esses comentários eram verdades absolutas sobre mim.

Deixei esses pensamentos do passado e foquei em nosso presente: voltamos para o local de antes, ao qual preferi ter me ausentado um pouco mais. Marrie e Paul estavam dando uns amassos e pareceram não se importar com a nossa interrupção. Tom me ofereceu um drink e eu engoli tudo de uma vez tentando apagar essa cena.

"Desta vez quando voltarmos, temos que nos certificar se Paul e Marrie terminaram de transar", disse Tom aos risos.

***
Já estava escurecendo quando decidimos encarar a trilha que eu escolhi para seguirmos em nossa aventura. Cada um de nós tinha uma dose de álcool considerável no organismo, mas acho que também conseguimos, do nosso jeito, raciocinar. Quer dizer, menos Paul... Bêbado ou não, ele era apenas um rostinho bonito.

"Me dê esse mapa que eu vou guiar vocês ao inferno!", falou Paul, tropeçando em seguida. Soltamos uma risada, enquanto Marrie o levantava. Tom foi ajudá-la e eu peguei o mapa me atentando a buscar alguma informação extra sobre a trilha que eu escolhera, para estarmos precavidos. Tendo a certeza de nosso caminho, o óbvio era começar a andar agora, antes que realmente as sombras da noite alimentassem qualquer medo infantil que porventura ainda residisse em mim. Paul puxou o mapa de minhas mãos abruptamente, eu fiquei enfurecida. Eu dei um empurrão nele e ele reagiu da forma mais covarde possível: me deu um soco. Tom não aguentou ver aquilo e partiu para cima de Paul, desferido um meteoro de socos no amigo. Eu e Marrie apenas gritávamos para que os dois parassem já...

Tom atendeu ao meu pedido, vindo ver como estava o meu rosto e Marrie, consequentemente, foi em socorro de seu amado.

"Eu tô bem, não foi nada. A gente está nessa porra de aventura louca, então vamos logo!", falei, tentando esconder a dor do soco na minha cara. Para mim, o importante era acabar com aquele sentimento ruim que ficou após a briga dos meus dois amigos e que nos atentássemos para continuar o que nos propomos a fazer no dia de hoje. Pode ter sido uma rápida recuperação, mas de minha parte, eu via minha atitude como uma injeção de ânimo.

"Me desculpe, Beka", falou Paul. O abracei e dei por fim qualquer clima de animosidade no ar.




Noite de Santa Valburga
Ao nascer do céu noturno
Hoje à noite as bruxas
Povo selvagem e laia de Lilith
Ventos ocultos passeiam à espreita

Deixe-nos circular às fogueiras
Sussurrando para alcançar as estrelas
Boa e também má palavra
Leve-nos hoje ainda mais adiante

Nos prados nossos sonhos soarão
E os ventos cantarão nossas canções
Deixe-nos saltar com as faíscas sobre o fogo
Na noite de Santa Valburga!

Ouça os violinos, ouça os violinos
A fogueira está acesa!
Siga a ciranda, siga a ciranda
Na noite de Santa Valburga!

Impetuoso ao tocar os violinos
Gira nossa ciranda noturna
E nós unimo-nos selvagens e livres
Nesta antiga magia

Apenas uma vez, em grandes círculos
Nós dançamos desta forma
Até a primeira luz da manhã
Nossa teia de sonhos rompe-se

Nos prados nossos sonhos soarão
E os ventos cantarão nossas canções
Deixe-nos saltar com as faíscas sobre o fogo
Na noite de Santa Valburga!

Ouça os violinos, ouça os violinos
A fogueira está acesa!
Siga a ciranda, siga a ciranda
Na noite de Santa Valburga!

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