01. Pecado
Deixe-me acariciar sua face, antes de morrer
Tombamos diariamente, como homens e mulheres necessitados
Descobristes nossa fraqueza, pactuamos com teu fim
Serva das trevas, loucura em mim
O pecado reencarnado, a mentira refeita na magia
Sociedade corrupta de seus valores
Nada mais são que falidas almas
Como convidada em minha festa, minha ruína em ti
Guardei o diário de Kassandra. Não havia nada que me fizesse aliviar o medo crescente. Eu sabia que cedo ou mais tarde, a noite reinaria. O mais provável e (insano) era passar a noite lá, e logo pela manhã, refazer em nossas mentes mais tranquilizadas, algum sinal ou indício que nos orientasse ao rumo certo a seguir. Comecei a ponderar sobre o grande erro que eu estava cometendo. Logo eu, a suposta inteligente da turma me deixei guiar por um instinto absurdo de travessura e uma transa com Tom.
"Você está bem?"
"Pareço bem, Tom? Não gostaria de admitir que Marrie estava certa sobre isso. Somos loucos", respondi.
"Calma, Beka. Talvez o que vimos seja resultado de algum medo coletivo".
"Não me venha com essa estupidez. Até eu, que não acreditava nessas coisas, devo assumir que há um mal aqui. Silencioso e fingindo. O que vimos foi bastante real, Tom. E se estamos na trilha verdadeira da bruxa? Daquelas que as pessoas da cidade não ousam falar o nome dela?"
"Meu amor, estamos perdidos na floresta, assustados como crianças e isso nos faz, a certa hora, ver e ouvir coisas que não existem. Se tudo isso fosse verdade, que nem nos filmes, agora mesmo no cair da noite, estaríamos todos em terror constantemente. Espero que o dia logo chegue e que possamos dar por fim esta aventura", disse Tom, antes de bocejar. Paul e eu trocamos olhares, enquanto acendíamos uma fogueira. Tentei desconversar o máximo que pude, para que Marrie não ficasse tão arrasada.
***
Não conseguimos dormir. Qualquer movimento, até no simples balançar de folhas, fazia com que arrepios percorressem nossos corpos. Mesmo com a proposta de Tom de vigiar o nosso sono, nem isso mesmo adiantou. Me lembro de quando meu pai morreu. Naquela noite eu não consegui dormir. Algo na escuridão da noite, me causava medo e intensificava minha dor. E Tom, naquele momento, apareceu gentilmente e me confortou. Prometeu que nada de mal aconteceria comigo, porque estaria ali, hoje e sempre, para me proteger. E foi exatamente isso que ele repetiu em meu ouvido.
Mas, eu estava irada demais para raciocinar direito... Irada por tamanha estupidez que cometera. Eu me sentia responsável por tudo isso. De uma maneira, acho que se eu tivesse me posicionado contrário, Marrie, Paul e Tom futuramente iriam desistir dessa loucura e procurar se aventurar em outra coisa. Mas, lá estávamos, por mais que as pessoas tivessem nos dito que não! Queríamos provar para nós mesmos e para os outros, que éramos invencíveis e deuses de nosso próprio destino. Olhei para a mina bolsa e eu vi a câmera que serviria para filmar os nossos grandes feitos. Pensei na época, em algumas frases do tipo "Fantasmas não existem!", "Olha eu aqui morrendo de medo". Foi perdida nesses pensamentos que acabei adormecendo sem perceber.
Embalada pelo conjunto de poesias do diário de Kassandra, a investigadora paranormal com quem eu tinha me esbarrado, sonhei que estava em um castelo. Em meu quarto, o espelho que eu havia quebrado, a relíquia de minha família, estava lá intacto! Eu olhava-o fixamente, ao mesmo tempo que segurava uma adaga encharcada de sangue. O mais bizarro era que eu não tinha medo daquilo. Parecia ser algo corriqueiro ver o sangue. Tão vermelho, tão vivo... Foi ai que eu vi um homem e uma mulher, que pareciam ser da realeza. O olhar de medo estavam estampados em suas faces. Aparentemente, o nobre fora obrigado, por uma força muito maior do que ele, a matar sua companheira.
"Me perdoe! Por favor, eu prometo..."
"Promessas não farão voltar no tempo, caro príncipe... O mal já está feito. Você não vê?"
"Ela não tinha nada a ver com isso!"
"Mas é claro que sim, meu querido! Ela dividia alegremente o leito com você, noite por noite, obedientemente, mesmo sabendo que eu estava em uma cela imunda de uma prisão morrendo. Eu era mãe. Mãe de um pecado. E o que ela fez? Nada! Ninguém fez nada por mim, até que a serpente negra me resgatou desta miséria, da qual você foi meu mestre. Eu não sou pior ou melhor do que você agora. O que me resta é espera que sua alma, assim como a minha, não encontre paz. E isso, eu vou garantir que aconteça!"
Traça dourada
Oi, é você? Eu tenho que ir
Eu sei que tenho que ir, tenho que ir
Eu senti dentro de mim que você me deixaria
Eu tenho que ir
É você, é você?
Estou com frio, estou com frio
É você, é você?
Estou com frio, estou com frio
Onde você esteve? Eu estive sozinha
Há muita escuridão, eu pensei que você tivesse ido embora
Mas aqui estou agora com você e sua mente
eu pensei que você tinha ido
É você, é você?
Estou com frio, estou com frio
É você, é você?
Estou com frio, estou com frio
Como um fantasma
Do seu hospedeiro
A mariposa dourada voa do mais íntimo
Para onde foi?
Para o sol, soltou suas asas uma a uma!
É você, oh, é você?
Estou com frio, estou com frio
É você, oh, é você?
Estou com frio!
0 Comentários