Hoje decidi caçar, mas eu fui
caçado por Maggie, que assim como eu, pertence ao Clã Centro do Universo do
Lorde Alexander. Imagino agora o que eles devem estar pensando de mim...
certamente, acham que cuspi no prato que comi, mas não foi bem assim...
Tudo
que me ordenavam, a partir do dia que me fora dado a nova vida, eu fazia e não
hesitava, muito menos questionava ou perguntava o motivo de tais crueldades. Porém,
quando fui apresentado à Catherine, o plano do Lorde estava traçado: sempre
objetivava o poder, o dinheiro, terras, ou até poderia haver um motivo muito
obscuro encobrindo o verdadeiro objetivo do clã. O plano inicial era eu me
aproximar da família Venutiche, ser alguém bastante confiável e digno da
amizade de Richard, ser bem íntimo da família...
Eu usei todo o meu dom de sedução, se bem que, na
condição que eu havia me tornado, a sedução era um dom (ou maldição) gratuito
cedido a cada vampiro pela Mãe de Todas as Aberrações, então, foi um fator
fundamental para influenciar ainda mais Catherine. Nós criamos um laço muito
forte em pouquíssimo tempo. Eu enxerguei nessa oportunidade, uma maneira de
obter grande lucro financeiro, quase me igualar economicamente ao Lorde e de
não mais receber suas ordens.
Contudo,
um certo dia, Alexander me propôs o seguinte:
-Eu tenho um novo serviço para
você, meu amor...
-Estou
ouvindo, meu Lorde...
-Preciso que mate Richard
Venutiche. Ele está atrapalhando meus planos. O que me diz? Fará isso, meu
jovem?
-É
claro, contudo, me permita saber o motivo...
-Por acaso não ouvistes
direito? Então vou repetir: mate Richard!
-Sim,
eu entendi...
-Agora pode ir. Creio que não
tenho mais fôlego para nossos joguinhos sensuais hoje.
-E
Catherine? O que eu faço com ela?
-Ela será uma apetitosa comida
para você, tenho certeza disso.
-Eu
nunca ousei contrariá-lo, meu Lorde, mas gostaria que o senhor repensasse a
possibilidade de deixá-la viva.
-Você se apaixonou por ela? Ah!
Patético seja o sentimento humano que paira cabeça de meu jovem
aprendiz... Já disse que ela morrerá, e
se não for por suas mãos, será pelas minhas!
Aquela seria uma maldade muito grande. Talvez fosse a
recordação da vida sofrida de minha amada Elisa, que não teve a presença do pai
para auxiliá-la em suas necessidades.
A
história não poderia se repetir. Eu precisava “dar um sumiço” em Richard e
salvar a vida de Catherine. O que eu estava pensando mesmo? Salvar a vida de
uma humana? Ir contra o homem que me deu uma nova vida e me proporcionou a
chance de vingar os assassinos de Elisa?
Tive tempo para orquestrar o meu plano. O senhor Richard
me parecia ser uma boa pessoa, um homem muito confiável, e mesmo sendo uma loucura,
o adverti dos planos do Lorde. Richard ficou sem entender, até porque não havia
motivos, e ao mesmo tempo, arrasado e traído por seu grande amigo inglês.
-O
senhor tem certeza que não fez nada? Algum motivo levou-o a tomar essa decisão
de matá-lo. Supostamente uma traição... foi o que ele me disse....
-Traição? Mas, o que foi que eu
fiz? Não entendo as reais intenções de Alexander. Contudo não posso deixar que
ele tente fazer algum mal a minha amada Catherine. Ela não tem nada a ver com
isso.
-Se
quiser que sua filha sobreviva à ira do Lorde, fará tudo que eu disser. Confie
em mim...
-Do mesmo jeito que eu confiei
na amizade de seu Lorde? Eu não sei em quem confiar, mas garanto uma coisa: ele
tocará em nenhum fio de cabelo de Catherine!
-Você
não sabe quem ele é de verdade. Nem eu mesmo sei. Não seja tão orgulhoso e
garanta a vida de sua filha. Você não disse que ela era o seu tesouro mais
valioso?
-Por ela, sou capaz de dar
minha vida!
-Pois
escute meu plano: você deve viajar para Tóquio e ficar na casa de uma amiga
chamada Lin Kainen. Lá, ficará seguro. Não tente se comunicar com ninguém até
que eu entre em contato. Não importa quanto tempo transcorra, espere o meu
chamado.
-E Catherine?
-Não
se preocupe. Farei de tudo para que ele mude de ideia. Caso isso não aconteça,
recorrei ao meu segundo plano.
-Acha que o Lorde acreditará
que eu estou morto tão fácil assim?
-Bem...
você estaria dispostos a morrer para salvar sua filha, não é? Digamos que eu
precise de um braço: direito ou esquerdo?
Eu
estava ajudando Richard por dinheiro. Isso ficou bastante claro assim que
acertamos as nossas contas, no final de todo o processo doloroso. Antes perder
um braço, do que a vida! Dinheiro era a lei deste mundo, tudo gira em torno
dele.
xxx
Meus
pensamentos do passado foram interrompidos ao chegar ao hotel onde Maggie me
esperava. Eu já não tinha mais forças para pensar. Minha cabeça apenas gritava
por comida... e lá estava, tão sedutora, quanto maquiavélica, Maggie Carlutes,
me olhando seriamente.
“Ora,
ora, o que você está fazendo aqui? Tenho certeza, por sua aparência, de que
ainda está com fome. O que foi? Não há mais comida lá fora? Como você é
incompetente, Chioli!”
“Não me
chame mais de Chioli! Você sabe que não gosto mais de ser chamado por este nome”.
“Só
porque foi o nome de ‘batismo’ do nosso Lorde? Tudo bem... não vamos falar do
passado... vamos relembrar da parte boa do passado, não é? Quero que lembre os
bons momentos que passamos juntos...”
Eu me
atrevi a aproximar daquela criatura. Mas, meus planos eram outros.
“Eu sabia que você não iria negar uma noite
de prazer. Passei seis meses procurando o seu cheiro até que o achei nesse fim
de mundo.”
Maggie
foi surpreendida por minha mudança repentina: comecei acariciando-a,
beijando-a, talvez tentando ver nela minha Catherine, minha odiada esposa... ou
até minha antiga esposa... Contudo, eu precisava me certificar que aquela
mulher não iria contar ao Lorde o meu paradeiro antes que eu pudesse me mudar
para outro país.
“O que você está fazendo, Stuart? Seu
maldito!”
Foi a
última frase de Maggie antes de eu quebrar o seu pescoço. Eu sabia que minha
ação traria consequências terríveis. O Lorde me caçaria ainda mais como um
cão. O sangue tinha respingado em todo o
quarto. Eu não importei com isso, e continuei a me deliciar com aquela bebida e
a matar a minha fome completamente alucinado com o prazer que aquele sangue me
oferecia. Confesso, que em momentos como esse, todo vampiro fica um pouco
irracional, preso em seu próprio mundinho de querer mais até chegar ao ponto de
estar completamente saciado, e é impossível parar para pensar nas consequências
de nossos atos. Eu matei uma informante do Lorde e realmente ele iria me caçar,
mais ainda do que eu já vinha sendo caçado. Toda a segurança que moldei para as
nossas vidas, fora por água abaixo. Eu trai a confiança de Alexander e ele não
hesitaria em me matar. Mas, como Maggie mesmo disse: “ele permitiu que você
gozasse de alguns meses de paz”, então ele já sabia de todos os meus passos?
Estaria, ele nessa noite, me espreitando?
Xxx
Naquele
dia, orientei o senhor Richard a se alojar na casa de Trellem Uvachi, em
Tóquio. Ele deveria seguir todas as instruções para manter-se salvo, enquanto
eu supostamente encenava a sua morte esplendorosa.
-Vejo
que foi muito rápido, Chiolli! Goste de pessoas que honrem com suas promessas.
Venha, sente-se ao meu lado. Sendo o meu serviçal, Chiolli, você só tem a
ganhar. Venha, Maggie, você também está convidada para esse momento.
Ainda
me lembro como se fosse hoje o dia que eu conheci Maggie: tão tímida, tão
inocente, mesmo sendo a pouco tempo transformada em vampira. Mesmo assim ela
aceitou estar entre nós, não somente esta noite, mas tantas outras quanto fosse
possível. Ela vivia repetindo para mim que vampiros podiam se apaixonar, apesar
do sexo falar mais forte. Aquela noite fora regada por sangue e orgias. Era
sempre assim quando o Lorde estava feliz conosco. Eu demonstrei entusiasmo,
mesmo começando a me sentir um pouco enojado, no final de todo processo: eu
sempre me sentia um vampiro depressivo no final do sexo. Em um momento estava
completamente alucinado com o prazer bacanal, mas depois, me sentia um lixo...
O que eu não desconfiava era que o Lorde já sabia do meu
plano. Aquilo tudo fora uma encenação, um teste, e eu falhei em perceber aquela
realidade. No dia seguinte, Tobias Valken, (um vampiro como eu, de segunda
classe, porque também fora transformado diretamente pelo Lorde, que goza de
certo poderes e habilidades, como por exemplo, caminhar sobre a luz do dia, não
ser morto por estaca de madeira, etc... ) me colocou a par de certas verdades:
-Você é mesmo louco, Chiolli! Como ousa enganar o Lorde? Acha que ele
não sabe que você deixou o senhor Richard fugir? E sabe o que ele fez? Creio
que Richard não tenha chegado ao seu destino, pois a sombra da morte veio como
um véu negro em toda aquela atmosfera e o cobriu com o seu toque mortal...
-Como? Como ele descobriu?
Vestia-me rapidamente, afastando de mim qualquer vestígio
da comemoração de ontem à noite.
-Você
é muito diferente de nós, Stuart. A diferença é que você não aceita ainda quem
você é. Você ainda nutre sentimentos humanos, como uma forma de afastar o
demônio que realmente você é: apesar de imortal, até certo ponto, você é um ser
mal, egoísta e ganancioso. É parte do que somos, Stuart. Fazendo o que você fez
por esse tal de Richard, você põe em risco os nossos planos, a nossa identidade.
São poucos os escolhidos para essa nova era e se os humanos suspeitarem que nós
somos reais, de alguma forma, e que não somos criaturas que apenas residem em
seus romances góticos e fantásticos, ou mesmo, como mitologias que morreram no
passado, seres incríveis e sombrios que governaram o mundo em épocas remotas,
se os humanos realmente perceberem que estamos entre eles, seremos aniquilados
em nossas poucas fraquezas, que existem sim! E morreremos antes de alcançarmos
nossos objetivos. É isso que você quer?
-Agradeço o começo de sua aula
de fidelidade, história e de identidade, do que eu sou agora, mas não posso
deixar que Catherine seja vítima das perversidades de Alexander.
-Você
escolhe ficar ao lado de uma humana do que gozar de toda a glória que é
oferecida ao estar ao nosso lado? Você não pode ter esquecido das mortes,
sangue, poder, vantagens sexuais e físicas, dinheiro, tudo isso que lhe fora
dado. Não adianta bancar o bonzinho agora. Você deixou de ser bom quando
despertou para esta vida. Você deixou de ser bom quando incontrolavelmente fez
sua primeira vítima humana, um petisco para seu banquete. Lembra disso?
Todas aquelas lembranças chicoteavam
a minha memória. Por um momento, esqueci da frágil Catherine, tão frágil quanto
minha amada Elisa. Por mais cruel que fosse, essa era a vida que escolhi depois
daquele terrível despertar. Por que insistentemente eu buscava me agarrar a
instintos humanos, a sentimentos que não correspondem à realidade gritante?
Tobbias estava certo. Eu estava jogando tudo fora por causa de... um simples
desejo de reparação. O mal já estava feito. Richard estava morto e o Lorde
comemorava minha farsa. Ainda eu poderia me redimir de tudo? Afinal, Catherine
ainda estava viva e indefesa, e sua cabeça seria a prova de minha lealdade.
-Obrigado, Tobbias. Os
fantasmas do passado já foram sepultados. Obrigado por me lembrar quem
realmente eu sou.
xxx
Voltei
à atenção ao corpo retalhado de Maggie: minha fome estava saciada. Com os
restos da vampira, fiz uma fogueira e tratei de que as lembranças se tornassem
cinzas. Contudo, só pude sentir o cheiro da podridão... a podridão de nossas
almas sombrias e corrompidas... Apreciei a beleza d anoite, enquanto tudo se
consumia em cinzas.
Era a
hora de voltar para casa. Era a hora de aproveitar os últimos momentos como um
“humano”. A escuridão se alastrava pelos corredores d mansão. Aqui acolá,
algumas velas iluminavam determinados pontos da casa. Mergulhei na banheira
para lavar-me daquele lamaçal de sangue. Eu podia lavar todo o corpo, menos a
alma, se é que ainda possuía uma à essa altura. Ao fechar os olhos, as
lembranças turvas e fantasmagóricas me convidavam a adentrar em seu obscuro e
atraente mundo, tão familiar quanto ao que eu vivia.
Vesti o
roupão e caminhei até meu quarto. Notei que a porta estava destrancada e já
ativei meu corpo para responder a provável ameaça. Mas tranquilizei meu
espírito assim que notei a criatura que estava por entre os meus lençóis, em
estava de adormecida: Catherine, a razão de minha ruína. Me enchi de ira por
ela invadir o meu espaço, mas logo a ira se transformou em um enorme desejo de
tê-la em meus braços. Eu não enxergava mais Catherine... Tudo que eu via era
minha rosa ruiva chamada Elisa. Aquela alucinação ganhou dimensões gigantescas.
Avancei em cima daquele corpo como um animal que eu era. Catherine deu um grito
assustada, mas não tão alto a ponto de acordar a criada. Seu grito foram
sufocados por meus lábios trêmulos e frios, enquanto minha mão desci pela sua
cintura. Eu queira voltar a sentir o amor de Elisa emanando e possuindo o meu
espírito. Seu beijo sufocante, e ao mesmo tempo explorador e insaciável, me
fazia vibrar a alma. Apertei-a junto a mim. Senti o seu sangue quente pulsar
todo o seu corpo. Delicadamente traguei o aroma de seu pescoço, que parecia
convidar-me a saborear de todo aquele corpo. Foi aí que novamente os pensamentos
tomaram conta de mim. Elisa estava morta. Aquela não era ela... Tudo estava
claro agora! Abruptamente empurrei-a e ela caiu, provavelmente machucando seu
rosto e braços na queda.
“Pensou
que poderia me enganar, Catherine? Ela está morta e você nunca vai ser Elisa.”
Era a primeira vez que eu pronunciava o nome de minha ex-esposa. Até então,
Catherine não sabia nada do meu passado, acerca de relacionamentos. Enquanto
Catherine saia aos pratos em direção ao seu quarto, com um mister de vergonha e
dor, eu me lancei na cama com as mãos na minha cabeça. Podia-se notar que eu
era um ser perturbado... Tudo que eu pensava era que podia ter matado Catherine
agora mesmo... se eu a tivesse mordido, se seu sangue me levasse à loucura de
não parar até que não restasse mais vida naquele corpo, de nada adiantaria a
traição ao Lorde.
xxx
Lembro que após escutar o sermão de Tobbias, estava
determinado a matar Catherine e provar minha lealdade. Cheguei na casa da jovem
e deparei-me com ela inconsolada, sendo amparada por sua criada, a senhora
Amanda, estando completamente impotente. Imaginei que ela soubera do ocorrido.
Não podia deixar de associar com a tristeza de minha Elisa. Catherine era ainda
uma adolescente e com certeza o pai lhe faria falta. Tantas histórias tristes
emergidas na solitude de seus pensamentos, nos desabafos em forma de lágrimas
pela ausência do pai... E eu me sentia responsável a partir daquele dia e jurei
protegê-la de tudo. Por um lado, eu não tinha nada a perder: Catherine era
consideravelmente rica, e só seria um estúpido casamento. E eu já tinha todas
as artimanhas para fazer com que a chorosa Catherine ficasse ao meu lado por
toda a eternidade. Não teríamos tempo para mais nada. Naquela mesmo noite,
desaparecemos: eu, Catherine e a criada Amanda.
Fugimos para a França e lá nos casamos. A princípio, eu não
lhe dissera nada dos termos do casamento. Mesmo triste com a morte do pai, vi
um resquício de fascínio quando nos casamos. Nem é preciso dizer que Catherine
é a mulher certa nessa etapa da minha vida, sua submissão a mim é incrível. Ela
aceitou humildemente todos os termos, sem questionar. Esse questionamento viria
no futuro, mas eu não era obrigado a revelar nada. No final das contas, a morte
de Richard veio adiantar alguns planos que eu tinha em mente: o primeiro, era
me tornar rico o suficiente para destronar o Lorde Alexander e deter todo o
poder de um dos maiores clãs vampirescos em minhas mãos... e assim, eu seria
dono do novo mundo... da nova era...
Você Vai Embora
Há tantos erros em sua vida
E você queria poder voltar no tempo
Sem tempo para tristezas e arrependimentos
Você está se afogando nas areias do tempo
Mas a vida continua dia após dia
E todas as falhas permanecerão
Você vai embora
Você vai embora
Do lugar que você deixou sem mim antes
Não há nada que faça você ficar
Você vai embora
Você vai embora
Do lugar que você deixou antes
Você não olhará para trás, pois não há mais nada para você dizer
Ohhh... ohhh... ohhh... ohhh...
Você manteve todas as memórias em seu coração
Você sabe que elas te privarão de ser livre
Você caminhará com o diabo no seu interior
Enquanto você não for capaz de esquecer
Mas a vida continua dia após dia
E todas as falhas permanecerão
Você vai embora
Você vai embora
A partir do lugar que você deixou antes sem mim.
Não há nada, que vai fazer você ficar.
Você vai embora
Você vai embora
Do lugar que você deixou antes
Você não olhará para trás, pois não há mais nada para você dizer
Ohhh ...
Ohhh ...
Você vai embora
Você vai embora
Você vai embora
Você vai embora
Do lugar que você deixou antes
Não há nada que faça você ficar
Você vai embora
Você vai embora
Do lugar que você deixou sem mim antes
Você não olhará para trás, pois não há mais nada para você dizer
Você vai embora
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