Capítulo 2: Caça ou caçador?

*romance sobrenatural vampiresco escrito em 2011/ Proibido para menores de 18 anos


Hoje decidi caçar, mas eu fui caçado por Maggie, que assim como eu, pertence ao Clã Centro do Universo do Lorde Alexander. Imagino agora o que eles devem estar pensando de mim... certamente, acham que cuspi no prato que comi, mas não foi bem assim...


Tudo que me ordenavam, a partir do dia que me fora dado a nova vida, eu fazia e não hesitava, muito menos questionava ou perguntava o motivo de tais crueldades. Porém, quando fui apresentado à Catherine, o plano do Lorde estava traçado: sempre objetivava o poder, o dinheiro, terras, ou até poderia haver um motivo muito obscuro encobrindo o verdadeiro objetivo do clã. O plano inicial era eu me aproximar da família Venutiche, ser alguém bastante confiável e digno da amizade de Richard, ser bem íntimo da família...

            Eu usei todo o meu dom de sedução, se bem que, na condição que eu havia me tornado, a sedução era um dom (ou maldição) gratuito cedido a cada vampiro pela Mãe de Todas as Aberrações, então, foi um fator fundamental para influenciar ainda mais Catherine. Nós criamos um laço muito forte em pouquíssimo tempo. Eu enxerguei nessa oportunidade, uma maneira de obter grande lucro financeiro, quase me igualar economicamente ao Lorde e de não mais receber suas ordens.

Contudo, um certo dia, Alexander me propôs o seguinte:

-Eu tenho um novo serviço para você, meu amor...

-Estou ouvindo, meu Lorde...

-Preciso que mate Richard Venutiche. Ele está atrapalhando meus planos. O que me diz? Fará isso, meu jovem?

-É claro, contudo, me permita saber o motivo...

-Por acaso não ouvistes direito? Então vou repetir: mate Richard!

-Sim, eu entendi...

-Agora pode ir. Creio que não tenho mais fôlego para nossos joguinhos sensuais hoje.

-E Catherine? O que eu faço com ela?

-Ela será uma apetitosa comida para você, tenho certeza disso.

-Eu nunca ousei contrariá-lo, meu Lorde, mas gostaria que o senhor repensasse a possibilidade de deixá-la viva.

-Você se apaixonou por ela? Ah! Patético seja o sentimento humano que paira cabeça de meu jovem aprendiz...  Já disse que ela morrerá, e se não for por suas mãos, será pelas minhas!

            Aquela seria uma maldade muito grande. Talvez fosse a recordação da vida sofrida de minha amada Elisa, que não teve a presença do pai para auxiliá-la em suas necessidades.

A história não poderia se repetir. Eu precisava “dar um sumiço” em Richard e salvar a vida de Catherine. O que eu estava pensando mesmo? Salvar a vida de uma humana? Ir contra o homem que me deu uma nova vida e me proporcionou a chance de vingar os assassinos de Elisa?

            Tive tempo para orquestrar o meu plano. O senhor Richard me parecia ser uma boa pessoa, um homem muito confiável, e mesmo sendo uma loucura, o adverti dos planos do Lorde. Richard ficou sem entender, até porque não havia motivos, e ao mesmo tempo, arrasado e traído por seu grande amigo inglês.

-O senhor tem certeza que não fez nada? Algum motivo levou-o a tomar essa decisão de matá-lo. Supostamente uma traição... foi o que ele me disse....

-Traição? Mas, o que foi que eu fiz? Não entendo as reais intenções de Alexander. Contudo não posso deixar que ele tente fazer algum mal a minha amada Catherine. Ela não tem nada a ver com isso.

-Se quiser que sua filha sobreviva à ira do Lorde, fará tudo que eu disser. Confie em mim...

-Do mesmo jeito que eu confiei na amizade de seu Lorde? Eu não sei em quem confiar, mas garanto uma coisa: ele tocará em nenhum fio de cabelo de Catherine!

-Você não sabe quem ele é de verdade. Nem eu mesmo sei. Não seja tão orgulhoso e garanta a vida de sua filha. Você não disse que ela era o seu tesouro mais valioso?

-Por ela, sou capaz de dar minha vida!

-Pois escute meu plano: você deve viajar para Tóquio e ficar na casa de uma amiga chamada Lin Kainen. Lá, ficará seguro. Não tente se comunicar com ninguém até que eu entre em contato. Não importa quanto tempo transcorra, espere o meu chamado.

-E Catherine?

-Não se preocupe. Farei de tudo para que ele mude de ideia. Caso isso não aconteça, recorrei ao meu segundo plano.

-Acha que o Lorde acreditará que eu estou morto tão fácil assim?

-Bem... você estaria dispostos a morrer para salvar sua filha, não é? Digamos que eu precise de um braço: direito ou esquerdo?

Eu estava ajudando Richard por dinheiro. Isso ficou bastante claro assim que acertamos as nossas contas, no final de todo o processo doloroso. Antes perder um braço, do que a vida! Dinheiro era a lei deste mundo, tudo gira em torno dele.
xxx
Meus pensamentos do passado foram interrompidos ao chegar ao hotel onde Maggie me esperava. Eu já não tinha mais forças para pensar. Minha cabeça apenas gritava por comida... e lá estava, tão sedutora, quanto maquiavélica, Maggie Carlutes, me olhando seriamente.

            “Ora, ora, o que você está fazendo aqui? Tenho certeza, por sua aparência, de que ainda está com fome. O que foi? Não há mais comida lá fora? Como você é incompetente, Chioli!”

“Não me chame mais de Chioli! Você sabe que não gosto mais de ser chamado por este nome”.

 “Só porque foi o nome de ‘batismo’ do nosso Lorde? Tudo bem... não vamos falar do passado... vamos relembrar da parte boa do passado, não é? Quero que lembre os bons momentos que passamos juntos...”

Eu me atrevi a aproximar daquela criatura. Mas, meus planos eram outros.

“Eu sabia que você não iria negar uma noite de prazer. Passei seis meses procurando o seu cheiro até que o achei nesse fim de mundo.”

Maggie foi surpreendida por minha mudança repentina: comecei acariciando-a, beijando-a, talvez tentando ver nela minha Catherine, minha odiada esposa... ou até minha antiga esposa... Contudo, eu precisava me certificar que aquela mulher não iria contar ao Lorde o meu paradeiro antes que eu pudesse me mudar para outro país.

“O que você está fazendo, Stuart? Seu maldito!”

Foi a última frase de Maggie antes de eu quebrar o seu pescoço. Eu sabia que minha ação traria consequências terríveis. O Lorde me caçaria ainda mais como um cão.  O sangue tinha respingado em todo o quarto. Eu não importei com isso, e continuei a me deliciar com aquela bebida e a matar a minha fome completamente alucinado com o prazer que aquele sangue me oferecia. Confesso, que em momentos como esse, todo vampiro fica um pouco irracional, preso em seu próprio mundinho de querer mais até chegar ao ponto de estar completamente saciado, e é impossível parar para pensar nas consequências de nossos atos. Eu matei uma informante do Lorde e realmente ele iria me caçar, mais ainda do que eu já vinha sendo caçado. Toda a segurança que moldei para as nossas vidas, fora por água abaixo. Eu trai a confiança de Alexander e ele não hesitaria em me matar. Mas, como Maggie mesmo disse: “ele permitiu que você gozasse de alguns meses de paz”, então ele já sabia de todos os meus passos? Estaria, ele nessa noite, me espreitando?
Xxx

Naquele dia, orientei o senhor Richard a se alojar na casa de Trellem Uvachi, em Tóquio. Ele deveria seguir todas as instruções para manter-se salvo, enquanto eu supostamente encenava a sua morte esplendorosa.

-Vejo que foi muito rápido, Chiolli! Goste de pessoas que honrem com suas promessas. Venha, sente-se ao meu lado. Sendo o meu serviçal, Chiolli, você só tem a ganhar. Venha, Maggie, você também está convidada para esse momento.

Ainda me lembro como se fosse hoje o dia que eu conheci Maggie: tão tímida, tão inocente, mesmo sendo a pouco tempo transformada em vampira. Mesmo assim ela aceitou estar entre nós, não somente esta noite, mas tantas outras quanto fosse possível. Ela vivia repetindo para mim que vampiros podiam se apaixonar, apesar do sexo falar mais forte. Aquela noite fora regada por sangue e orgias. Era sempre assim quando o Lorde estava feliz conosco. Eu demonstrei entusiasmo, mesmo começando a me sentir um pouco enojado, no final de todo processo: eu sempre me sentia um vampiro depressivo no final do sexo. Em um momento estava completamente alucinado com o prazer bacanal, mas depois, me sentia um lixo...

            O que eu não desconfiava era que o Lorde já sabia do meu plano. Aquilo tudo fora uma encenação, um teste, e eu falhei em perceber aquela realidade. No dia seguinte, Tobias Valken, (um vampiro como eu, de segunda classe, porque também fora transformado diretamente pelo Lorde, que goza de certo poderes e habilidades, como por exemplo, caminhar sobre a luz do dia, não ser morto por estaca de madeira, etc... ) me colocou a par de certas verdades:
-Você é mesmo louco, Chiolli! Como ousa enganar o Lorde? Acha que ele não sabe que você deixou o senhor Richard fugir? E sabe o que ele fez? Creio que Richard não tenha chegado ao seu destino, pois a sombra da morte veio como um véu negro em toda aquela atmosfera e o cobriu com o seu toque mortal...
-Como? Como ele descobriu?

            Vestia-me rapidamente, afastando de mim qualquer vestígio da comemoração de ontem à noite.

-Você é muito diferente de nós, Stuart. A diferença é que você não aceita ainda quem você é. Você ainda nutre sentimentos humanos, como uma forma de afastar o demônio que realmente você é: apesar de imortal, até certo ponto, você é um ser mal, egoísta e ganancioso. É parte do que somos, Stuart. Fazendo o que você fez por esse tal de Richard, você põe em risco os nossos planos, a nossa identidade. São poucos os escolhidos para essa nova era e se os humanos suspeitarem que nós somos reais, de alguma forma, e que não somos criaturas que apenas residem em seus romances góticos e fantásticos, ou mesmo, como mitologias que morreram no passado, seres incríveis e sombrios que governaram o mundo em épocas remotas, se os humanos realmente perceberem que estamos entre eles, seremos aniquilados em nossas poucas fraquezas, que existem sim! E morreremos antes de alcançarmos nossos objetivos. É isso que você quer?

-Agradeço o começo de sua aula de fidelidade, história e de identidade, do que eu sou agora, mas não posso deixar que Catherine seja vítima das perversidades de Alexander.

-Você escolhe ficar ao lado de uma humana do que gozar de toda a glória que é oferecida ao estar ao nosso lado? Você não pode ter esquecido das mortes, sangue, poder, vantagens sexuais e físicas, dinheiro, tudo isso que lhe fora dado. Não adianta bancar o bonzinho agora. Você deixou de ser bom quando despertou para esta vida. Você deixou de ser bom quando incontrolavelmente fez sua primeira vítima humana, um petisco para seu banquete. Lembra disso?
Todas aquelas lembranças chicoteavam a minha memória. Por um momento, esqueci da frágil Catherine, tão frágil quanto minha amada Elisa. Por mais cruel que fosse, essa era a vida que escolhi depois daquele terrível despertar. Por que insistentemente eu buscava me agarrar a instintos humanos, a sentimentos que não correspondem à realidade gritante? Tobbias estava certo. Eu estava jogando tudo fora por causa de... um simples desejo de reparação. O mal já estava feito. Richard estava morto e o Lorde comemorava minha farsa. Ainda eu poderia me redimir de tudo? Afinal, Catherine ainda estava viva e indefesa, e sua cabeça seria a prova de minha lealdade.

-Obrigado, Tobbias. Os fantasmas do passado já foram sepultados. Obrigado por me lembrar quem realmente eu sou.

xxx
Voltei à atenção ao corpo retalhado de Maggie: minha fome estava saciada. Com os restos da vampira, fiz uma fogueira e tratei de que as lembranças se tornassem cinzas. Contudo, só pude sentir o cheiro da podridão... a podridão de nossas almas sombrias e corrompidas... Apreciei a beleza d anoite, enquanto tudo se consumia em cinzas.

Era a hora de voltar para casa. Era a hora de aproveitar os últimos momentos como um “humano”. A escuridão se alastrava pelos corredores d mansão. Aqui acolá, algumas velas iluminavam determinados pontos da casa. Mergulhei na banheira para lavar-me daquele lamaçal de sangue. Eu podia lavar todo o corpo, menos a alma, se é que ainda possuía uma à essa altura. Ao fechar os olhos, as lembranças turvas e fantasmagóricas me convidavam a adentrar em seu obscuro e atraente mundo, tão familiar quanto ao que eu vivia.

Vesti o roupão e caminhei até meu quarto. Notei que a porta estava destrancada e já ativei meu corpo para responder a provável ameaça. Mas tranquilizei meu espírito assim que notei a criatura que estava por entre os meus lençóis, em estava de adormecida: Catherine, a razão de minha ruína. Me enchi de ira por ela invadir o meu espaço, mas logo a ira se transformou em um enorme desejo de tê-la em meus braços. Eu não enxergava mais Catherine... Tudo que eu via era minha rosa ruiva chamada Elisa. Aquela alucinação ganhou dimensões gigantescas. Avancei em cima daquele corpo como um animal que eu era. Catherine deu um grito assustada, mas não tão alto a ponto de acordar a criada. Seu grito foram sufocados por meus lábios trêmulos e frios, enquanto minha mão desci pela sua cintura. Eu queira voltar a sentir o amor de Elisa emanando e possuindo o meu espírito. Seu beijo sufocante, e ao mesmo tempo explorador e insaciável, me fazia vibrar a alma. Apertei-a junto a mim. Senti o seu sangue quente pulsar todo o seu corpo. Delicadamente traguei o aroma de seu pescoço, que parecia convidar-me a saborear de todo aquele corpo. Foi aí que novamente os pensamentos tomaram conta de mim. Elisa estava morta. Aquela não era ela... Tudo estava claro agora! Abruptamente empurrei-a e ela caiu, provavelmente machucando seu rosto e braços na queda.

“Pensou que poderia me enganar, Catherine? Ela está morta e você nunca vai ser Elisa.” Era a primeira vez que eu pronunciava o nome de minha ex-esposa. Até então, Catherine não sabia nada do meu passado, acerca de relacionamentos. Enquanto Catherine saia aos pratos em direção ao seu quarto, com um mister de vergonha e dor, eu me lancei na cama com as mãos na minha cabeça. Podia-se notar que eu era um ser perturbado... Tudo que eu pensava era que podia ter matado Catherine agora mesmo... se eu a tivesse mordido, se seu sangue me levasse à loucura de não parar até que não restasse mais vida naquele corpo, de nada adiantaria a traição ao Lorde.

xxx
            Lembro que após escutar o sermão de Tobbias, estava determinado a matar Catherine e provar minha lealdade. Cheguei na casa da jovem e deparei-me com ela inconsolada, sendo amparada por sua criada, a senhora Amanda, estando completamente impotente. Imaginei que ela soubera do ocorrido. Não podia deixar de associar com a tristeza de minha Elisa. Catherine era ainda uma adolescente e com certeza o pai lhe faria falta. Tantas histórias tristes emergidas na solitude de seus pensamentos, nos desabafos em forma de lágrimas pela ausência do pai... E eu me sentia responsável a partir daquele dia e jurei protegê-la de tudo. Por um lado, eu não tinha nada a perder: Catherine era consideravelmente rica, e só seria um estúpido casamento. E eu já tinha todas as artimanhas para fazer com que a chorosa Catherine ficasse ao meu lado por toda a eternidade. Não teríamos tempo para mais nada. Naquela mesmo noite, desaparecemos: eu, Catherine e a criada Amanda.

            Fugimos para a França e lá nos casamos. A princípio, eu não lhe dissera nada dos termos do casamento. Mesmo triste com a morte do pai, vi um resquício de fascínio quando nos casamos. Nem é preciso dizer que Catherine é a mulher certa nessa etapa da minha vida, sua submissão a mim é incrível. Ela aceitou humildemente todos os termos, sem questionar. Esse questionamento viria no futuro, mas eu não era obrigado a revelar nada. No final das contas, a morte de Richard veio adiantar alguns planos que eu tinha em mente: o primeiro, era me tornar rico o suficiente para destronar o Lorde Alexander e deter todo o poder de um dos maiores clãs vampirescos em minhas mãos... e assim, eu seria dono do novo mundo... da nova era...



Você Vai Embora
Há tantos erros em sua vida
E você queria poder voltar no tempo
Sem tempo para tristezas e arrependimentos
Você está se afogando nas areias do tempo

Mas a vida continua dia após dia
E todas as falhas permanecerão

Você vai embora
Você vai embora
Do lugar que você deixou sem mim antes
Não há nada que faça você ficar

Você vai embora
Você vai embora
Do lugar que você deixou antes
Você não olhará para trás, pois não há mais nada para você dizer

Ohhh... ohhh... ohhh... ohhh...

Você manteve todas as memórias em seu coração
Você sabe que elas te privarão de ser livre
Você caminhará com o diabo no seu interior
Enquanto você não for capaz de esquecer

Mas a vida continua dia após dia
E todas as falhas permanecerão

Você vai embora
Você vai embora
A partir do lugar que você deixou antes sem mim.
Não há nada, que vai fazer você ficar.

Você vai embora
Você vai embora
Do lugar que você deixou antes
Você não olhará para trás, pois não há mais nada para você dizer

Ohhh ...
Ohhh ...
Você vai embora
Você vai embora

Você vai embora
Você vai embora
Do lugar que você deixou antes
Não há nada que faça você ficar

Você vai embora
Você vai embora
Do lugar que você deixou sem mim antes
Você não olhará para trás, pois não há mais nada para você dizer

Você vai embora

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