Capítulo 03: Carta branca- parte 1

 


Certo dia, Auriel usou pela primeira vez na vida, o truque de ocultar sua áurea celeste. Era extremamente raro um Anjo conseguir realizar isso, e proibido também. Porém, ele tinha os seus motivos para ariscar... E seus motivos eram dolorosos e preocupantes. Estava determinado a se, no caso fosse pego, assumir qualquer responsabilidade.

Auriel estava inconsolado como nunca estivera antes. Sabia que a qualquer hora, a vida de Aisha estaria por um fio. Céus! Depois de tanto tempo e aqueles sentimentos insistiam a voltar à tona, como fantasmas cobrando uma dívida do passado...

Lá estava a moribunda em seu aposento humilde, sob os cuidados de Himali, uma garota que a amava como se ela fosse sua própria mãe.

Auriel sabia que tinha pouco tempo para se aproximar de sua mortal amada, antes que o Anjo da Morte lhe transpassasse a foice e cortasse o cordão que liga a vida e a morte.

Não importava mais o medo de ser descoberto a essa altura. Assim que se deparou com a imagem de sua amada naquele estado terrível, tudo mudou. Ela estava ali, tão frágil, contudo, cultivava aquela mesma beleza e bondade de outrora. Ele não tardou também de descobrir as marcas em seu corpo e presumiu que era autopunição, autoflagelação... Por mais que aquilo lhe atingisse, de uma maneira que parecia que todo o peso do mundo estava em suas costas, decidiu não tocar neste detalhe, apesar de estar com “a alma” em pedaços por imaginar tal situação, cujo culpado era ele mesmo. Assim que entrou em seu leito, Aisha sorriu.

–Ora, ora... Já faz um bom tempo que não nos vemos, caro Mensageiro...

Auriel engoliu “o choro”, antes que ela presenciasse sua fraqueza, apesar dele ter consciência de que ela provavelmente já sabia disso, pois as lágrimas foram muito mais rápidas do que qualquer pensamento ordenador. Ele sentia que, mais do que nunca, deveria preservar aquela alma do inferno. Tudo que fizera até agora foi um atropelo de erros. Deveria ir embora agora mesmo!

Porém, Aisha foi mais rápida: segurou suas mãos, impedindo que Auriel se ausentasse novamente. Aquilo lhe fez estremecer. Não fora apenas um simples toque... Foi um toque que atravessou o seu corpo angelical e lhe tomou o espírito. Ele se ajoelhou e a beijou na testa, enquanto o sorriso envolvia a face da moribunda. Em seu espírito, nunca se sentiu tão feliz por aquele simples beijo.

Himali assistia a tudo de longe, sem entender de nada.  Julgou depois que, na certa, aquele estranho fosse uma antiga paixão de sua “mãe” e não a censurou de forma alguma, e muito menos iria lhe privar dos poucos minutos de alegria, depois de tantos anos de dores, choros e tristezas. Preferiu deixá-los a sós para terem mais privacidade.

–Não vai sair nenhuma palavra de tua boca? Olha que a moribunda sou eu, e mesmo assim ainda tenho forças para dizer que...

Nesse exato momento sua fala foi “cortada” por um excesso de tosse. Auriel pôs a mão em sua boca, como se estivesse pedindo silêncio ou quisesse evitar algum esforço, porém já era hora de falar, de revelar todo o amor que sempre nutriu por ela e o sacrifício que fez, de passar tanto tempo longe dela, em virtude da preservação de sua alma.

–Não precisa dizer mais nada. Sei que sua ausência foi para que eu fosse salva. De alguma forma, sinto-me feliz agora, sabia? Esse é o maior sinal que tenho de que você realmente me ama.

–E eu sempre te amarei. Que Deus possa ter misericórdia de nós, especialmente de ti, meu pobre Anjo! Espero que gozes do Paraíso e de todo o amor divino, e que Ele preencha a minha ausência. Espero que me perdoe por minha covardia. Mas saiba que...

Nesse momento, Ullieh entrara abruptamente no recinto, assustando a todos os presentes.

–Você tem que ir, amigo... Ramáh virá para levar a alma dela a qualquer momento. Se você for pego... Não gostaria de pensar nas consequências... Por isso, vá amigo! Vá agora!

 Tudo aquilo fora um choque para Auriel. O medo de perder o seu estimado posto, o medo do castigo divino, o medo de corromper a alma da pessoa que mais amou falou mais alto...  O medo parecia brincar com os seus outros sentimentos, que foram postos de lado e depois esquecidos. No final, ele deveria abolir tais sentimentos e só assim, Aisha poderia ser salva. Mas salva do que, se nunca chegou a pecar? Se nunca chegou a beijá-lo ou desejá-lo ardentemente, assim como a relação entre eu e Ullieh?

Ullieh agarrou o braço do amigo com força, puxando-o, com a intenção de quem se retirassem do recinto o mais rápido possível.

Auriel se negava a largar a mão de Aisha. Ele praticamente estava prestes a iniciar uma luta ali mesmo com o seu melhor amigo ou com quem ousasse se aproximar de sua amada sacerdotisa.

–Vá Mensageiro!

 Aisha tinha uma voz doce e divina. Ela forçou o seu melhor sorriso que encheu o espírito de Auriel de confiança: confiança que, aonde quer que ela fosse, a morte não seria empecilho para arrastar ao abismo, a lembrança da importância daquela pobre criatura e de todo o seu amor reprimido, verdadeiro e sagrado.

Tempos depois, Auriel chorava enquanto um de seus subordinados levava a alma de Aisha. Seu único consolo foi saber que em seu último sopro de vida, Aisha não sofreu. Apenas morreu com o sorriso nos lábios e agarrada a fé de que o Amor nunca se evanesce...



Quando o torrencial de lembranças terminou de passar como um filme em sua mente, novamente Auriel se viu preso à realidade: era a hora de rezar mais do que nunca para que a misericórdia do bom Deus permitisse aos três Arcanjos Divinos serem guiados e, assim, consentirem o processo de reencarnação.

Algum tempo depois surgiu Rangel, porta-voz dos Arcanjos Divinos, com um papel dourado nas mãos que foi entregue a Auriel, que, na mesma hora, tremeu de medo e excitação: não aguentou mais tantos pensamentos e especulações, afinal de contas, o tempo corria contra todos... Independente de serem bons ou maus, mortais ou imortais...

“Pronto! Obrigado Deus! Ávila será reencarnada o mais breve possível. E eu...” Preferiu não continuar seus pensamentos, com medo de que aquilo o denunciasse. Ele teria que ser apenas “profissional” sem deixar transparecer o real motivo de sua aflição, perante o desaparecimento da alma de Aisha. “Preciso entrar em contato o mais rápido possível com o Guardião do Paraíso e ter acesso a lista de entradas e saídas. Além disso, também preciso do relatório de segurança. Houve uma falha muito grande ou as forças obscuras estão se tornando espertas o suficiente para entrarem em solos sagrados duas vezes sem serem notadas.”


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