Kate White estava
trêmula e nervosa. Depois de presenciar
o pedido de casamento de Lin, ela fora tragada para a sua própria realidade. Apesar
de Suse pedir para desistir de tudo e apenas ter uma conversa mais particular
com Lili, Kate negou-se a acovardar.
Quando,
enfim, estava com o microfone nas mãos, começou o seu discurso, sem pausa
nenhuma para respirar. Era agora ou nunca, pensou.
“Olá a todos e a
todas. Vocês me conhecem como uma garota mimada, mesquinha, egoísta e má. Na
verdade, fui tudo isso mesmo. Acho que agora não pretendo ser mais o que eu fui
no passado. O fato é que muitos de vocês conhecem bem a fundo a minha vida.
Sabem dos meus podres e besteiras feitas ao longo desses meus 16 anos de
existência. Hoje não estou aqui para desabafar sobre a minha patética maldade
cumulativa. Não quero confessar meus crimes contra colegas, amigos ou inimigos.
Cada um deles sabem o que eu fiz de bom ou de ruim para eles, para suas vidas.
Estou aqui mesmo porque, por mais absurdo que pareça, eu quero ser livre. É uma
concepção de vida diferente, sabe? Livre de todas essas baboseiras que eu fiz e
que incentivei que os outros fizessem... Bem, o ser humano é uma besta mesmo.
Sentimos um prazer incontrolável em fazer o outro sofrer, em se achar superior
aos demais, em achar que o dinheiro sempre compra tudo. Desde que me conheço
por gente, fui assim: uma garota que se achava a última coca-cola do deserto,
que tratava as pessoas ao meu redor com desprezo, preconceito, discriminação. Os
meus amigos eram meus servos e escravos de longa data. Como dizem por ai, um
bando de pau mandado! Faziam tudo que eu pedia com medo de serem excluídos do
falso vínculo social que eu criei e de ficar fora dos benefícios que teriam com
minha amizade e influência. Não vou aqui enumerar meus erros. Estou aqui para
pedir perdão a cada um que direta ou indiretamente foram vítimas de minha
maldade: de uma simples fofoca à ações de bullying... Estou aqui para pedir
perdão, em especial, a Lili, minha colega de sala e conhecida desde quando
éramos bebês. Realmente eu sinto muito por todo mal-estar que eu lhe causei. De
verdade! Não estou aqui de brincadeira. Acho que falando para todos aqui é como
se todo o peso do mundo fosse tirado de minhas costas. Sei que vocês queriam
estar jogando ovos em mim ou me chamando de tudo o que é nome ruim. Mas antes
de finalizar meu discurso, só queria pedir desculpas a uma colega que não está
aqui para ouvir. Bem, ela poder estar ouvindo isso em outro lugar, pra quem
acredita que, de alguma forma, a vida continua... Minhas desculpas pela
imprudência que culminou com sua morte. Me perdoe, Ávila Kurts!”
Quase que ela não conseguia falar o meu nome. Ela se
sentiu tonta, como se fosse desmaiar. E, de fato, ela desmaiou depois de
começar a chorar. Alguns pensaram que foi uma verdadeira dramatização. Outros,
porém, acreditaram nas palavras arrependidas de uma adolescente que depois de
tanto tempo, reconheceu os seus erros. Afinal, antes tarde do que nunca, não é?
Meu pai foi em seu socorro, enquanto todos estavam surpresos e chocados.
“Mas que palhaçada
foi essa, Lin?” Disse Lili, revoltada com aquele discurso de Kate que
estragara a sua magnífica noite dos sonhos.
“Você não acreditou em nenhuma
palavra do que ela disse?” Falou Lin, tentando amenizar a
situação constrangedora que Lili foi envolvida, à medida que todos voltaram
seus olhares para ela. Eles decidiram se ausentar no estádio, permanecendo no
banheiro por altas horas, até que Lili deixasse a raiva desvanecer um pouco...
“Ou ela está bêbada, drogada, ou fez
uma aposta... ou provavelmente ficou louca!” Gritou aos
quatros cantos do mundo.
“Eu senti verdade no que ela disse.
Não viu o quanto ela estava abalada? Ela estava bem trêmula... Até desmaiou! E
assumir os seus erros na vista de muita gente é um ato de coragem...”
“Está defendendo ela? Eu não sou
cega, Lin. Nem surda. Vi e ouvi tudo isso, mas não posso ser hipócrita, amor.
Eu espero que ela seja feliz e que seja livre como ela diz que quer ser... Mas
não vou perdoá-la, Lin. Talvez o tempo possa me ajudar a perdoá-la um dia. Ou
não...”
“Assim espero...
Pra você também ser feliz, amor...” Lili repensou em todo o discurso de
Kate. Apesar de não querer reconhecer, ela viu que havia uma pontada de verdade
em tudo que a Miss Coldland dissera. Ela vira o quanto Kate ficou abalada
quando pronunciou o meu nome. Na verdade, ela se sentia responsável por minha
morte durante todo esse tempo. Só não queria admitir que tinha uma fraqueza...
Depois do susto e do
desmaio, já em sua casa, Kate e seu pai conversavam. O senhor White se mostrou
bastante feliz por enfim, Kate estar aceitando mudar:
“Como está filha?”
“Eu acho que mais... tranquila...
sei lá... Diferente... Acho que essa é a palavra mais apropriada.”
Disse Kate contemplando as estrelas que enfeitavam o teto de seu quarto.
“Eu lamento, filha. Lamento por não
ter estado ao seu lado nesse momento. Imagino o quanto foi difícil deixar todo
o orgulho de lado e subir naquele palco pra fazer o que fez. Tenho certeza de
que todos ficaram satisfeitos com a sua atitude.”
“Nem todos, não é pai? A mamãe deve
ter ficado uma fera. Porém, não ligo não.” E soltou uma
gargalhada, imaginando a cara furiosa de sua mãe, seguida de um sermão da
montanha...
“O importante é você estar se
sentido bem, minha pequena pimentinha. Se lembra quando você era pequena? Você
aprontava tanto que eu te chamava de pimentinha.”
E a conversa durou toda a noite...
Fazia meses que não
tínhamos notícias de Ullieh. Rubi falara com o representante de Abud em
Coldland, que não acrescentou nada de importante, já que ele não havia
conseguido obter nenhuma resposta de seus amigos em Jerusalém.
Rubi,
assim como eu, temia o pior. Aproximava-se a hora e o dia marcado para o
encontro com Auriel e não tínhamos nada em mãos para oferecer.
Era uma segunda-feira e o encontro fora marcado às 14
horas na floresta mais conhecida de Coldland, no lado Oeste, perto do Rio
Raven. Rubi estava de mãos vazias e sem nenhuma notícia ou justificativa... A
não ser a bombástica revelação de que havia um Anjo, altamente poderoso,
trabalhando para o lado negro da força, com a finalidade de antecipar o período
pré-apocalíptico na Terra e usar a magia do Livro de Enoque como peça-chave ou
o “calcanhar de Aquiles” para os Anjos, em uma futura batalha.
Chegara o momento e Rubi me deixou na companhia de Anúbis
e Lótus. Eu estava em prantos com a falta de notícias de Ullieh e bastante
irada com este maldito segredo que ela não quis me revelar depois de tanto
tempo da ausência de meu amado, que provavelmente estava em perigo por minha
causa. Disso eu tinha certeza.
“Prometo que vai
ser rapidinho. Logo estarei aqui, Ávila. Sei que não aprecia minha companhia.
Já está suportando muito. Se eu estivesse em seu lugar, realmente não aguentaria
por tanto tempo. Com certeza Auriel nos ajudará a saber, o que de fato,
aconteceu com Ullieh. Você também vai ficar com ótimas companhias. Ninguém
seria louco o suficiente de fazer algo com você. Fique tranquila: vai dar tudo
certo!” E assim, a dama ruiva partiu rumo ao encontro com o seu ex-chefe, o
líder Supremo da Classe dos Anjos da Morte.


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