Capítulo 06: Ser livre!- parte 2

 


Kate White estava trêmula e nervosa.  Depois de presenciar o pedido de casamento de Lin, ela fora tragada para a sua própria realidade. Apesar de Suse pedir para desistir de tudo e apenas ter uma conversa mais particular com Lili, Kate negou-se a acovardar.

Quando, enfim, estava com o microfone nas mãos, começou o seu discurso, sem pausa nenhuma para respirar. Era agora ou nunca, pensou.

            “Olá a todos e a todas. Vocês me conhecem como uma garota mimada, mesquinha, egoísta e má. Na verdade, fui tudo isso mesmo. Acho que agora não pretendo ser mais o que eu fui no passado. O fato é que muitos de vocês conhecem bem a fundo a minha vida. Sabem dos meus podres e besteiras feitas ao longo desses meus 16 anos de existência. Hoje não estou aqui para desabafar sobre a minha patética maldade cumulativa. Não quero confessar meus crimes contra colegas, amigos ou inimigos. Cada um deles sabem o que eu fiz de bom ou de ruim para eles, para suas vidas. Estou aqui mesmo porque, por mais absurdo que pareça, eu quero ser livre. É uma concepção de vida diferente, sabe? Livre de todas essas baboseiras que eu fiz e que incentivei que os outros fizessem... Bem, o ser humano é uma besta mesmo. Sentimos um prazer incontrolável em fazer o outro sofrer, em se achar superior aos demais, em achar que o dinheiro sempre compra tudo. Desde que me conheço por gente, fui assim: uma garota que se achava a última coca-cola do deserto, que tratava as pessoas ao meu redor com desprezo, preconceito, discriminação. Os meus amigos eram meus servos e escravos de longa data. Como dizem por ai, um bando de pau mandado! Faziam tudo que eu pedia com medo de serem excluídos do falso vínculo social que eu criei e de ficar fora dos benefícios que teriam com minha amizade e influência. Não vou aqui enumerar meus erros. Estou aqui para pedir perdão a cada um que direta ou indiretamente foram vítimas de minha maldade: de uma simples fofoca à ações de bullying... Estou aqui para pedir perdão, em especial, a Lili, minha colega de sala e conhecida desde quando éramos bebês. Realmente eu sinto muito por todo mal-estar que eu lhe causei. De verdade! Não estou aqui de brincadeira. Acho que falando para todos aqui é como se todo o peso do mundo fosse tirado de minhas costas. Sei que vocês queriam estar jogando ovos em mim ou me chamando de tudo o que é nome ruim. Mas antes de finalizar meu discurso, só queria pedir desculpas a uma colega que não está aqui para ouvir. Bem, ela poder estar ouvindo isso em outro lugar, pra quem acredita que, de alguma forma, a vida continua... Minhas desculpas pela imprudência que culminou com sua morte. Me perdoe, Ávila Kurts!”

            Quase que ela não conseguia falar o meu nome. Ela se sentiu tonta, como se fosse desmaiar. E, de fato, ela desmaiou depois de começar a chorar. Alguns pensaram que foi uma verdadeira dramatização. Outros, porém, acreditaram nas palavras arrependidas de uma adolescente que depois de tanto tempo, reconheceu os seus erros. Afinal, antes tarde do que nunca, não é? Meu pai foi em seu socorro, enquanto todos estavam surpresos e chocados.

            “Mas que palhaçada foi essa, Lin?” Disse Lili, revoltada com aquele discurso de Kate que estragara a sua magnífica noite dos sonhos.

            “Você não acreditou em nenhuma palavra do que ela disse?” Falou Lin, tentando amenizar a situação constrangedora que Lili foi envolvida, à medida que todos voltaram seus olhares para ela. Eles decidiram se ausentar no estádio, permanecendo no banheiro por altas horas, até que Lili deixasse a raiva desvanecer um pouco...

            “Ou ela está bêbada, drogada, ou fez uma aposta... ou provavelmente ficou louca!” Gritou aos quatros cantos do mundo.

            “Eu senti verdade no que ela disse. Não viu o quanto ela estava abalada? Ela estava bem trêmula... Até desmaiou! E assumir os seus erros na vista de muita gente é um ato de coragem...”

            “Está defendendo ela? Eu não sou cega, Lin. Nem surda. Vi e ouvi tudo isso, mas não posso ser hipócrita, amor. Eu espero que ela seja feliz e que seja livre como ela diz que quer ser... Mas não vou perdoá-la, Lin. Talvez o tempo possa me ajudar a perdoá-la um dia. Ou não...”

            “Assim espero... Pra você também ser feliz, amor...” Lili repensou em todo o discurso de Kate. Apesar de não querer reconhecer, ela viu que havia uma pontada de verdade em tudo que a Miss Coldland dissera. Ela vira o quanto Kate ficou abalada quando pronunciou o meu nome. Na verdade, ela se sentia responsável por minha morte durante todo esse tempo. Só não queria admitir que tinha uma fraqueza...

Depois do susto e do desmaio, já em sua casa, Kate e seu pai conversavam. O senhor White se mostrou bastante feliz por enfim, Kate estar aceitando mudar:

            “Como está filha?”

            “Eu acho que mais... tranquila... sei lá... Diferente... Acho que essa é a palavra mais apropriada.” Disse Kate contemplando as estrelas que enfeitavam o teto de seu quarto.

            “Eu lamento, filha. Lamento por não ter estado ao seu lado nesse momento. Imagino o quanto foi difícil deixar todo o orgulho de lado e subir naquele palco pra fazer o que fez. Tenho certeza de que todos ficaram satisfeitos com a sua atitude.”

            “Nem todos, não é pai? A mamãe deve ter ficado uma fera. Porém, não ligo não.” E soltou uma gargalhada, imaginando a cara furiosa de sua mãe, seguida de um sermão da montanha...

            “O importante é você estar se sentido bem, minha pequena pimentinha. Se lembra quando você era pequena? Você aprontava tanto que eu te chamava de pimentinha.” E a conversa durou toda a noite...



Fazia meses que não tínhamos notícias de Ullieh. Rubi falara com o representante de Abud em Coldland, que não acrescentou nada de importante, já que ele não havia conseguido obter nenhuma resposta de seus amigos em Jerusalém.

Rubi, assim como eu, temia o pior. Aproximava-se a hora e o dia marcado para o encontro com Auriel e não tínhamos nada em mãos para oferecer.

            Era uma segunda-feira e o encontro fora marcado às 14 horas na floresta mais conhecida de Coldland, no lado Oeste, perto do Rio Raven. Rubi estava de mãos vazias e sem nenhuma notícia ou justificativa... A não ser a bombástica revelação de que havia um Anjo, altamente poderoso, trabalhando para o lado negro da força, com a finalidade de antecipar o período pré-apocalíptico na Terra e usar a magia do Livro de Enoque como peça-chave ou o “calcanhar de Aquiles” para os Anjos, em uma futura batalha.

            Chegara o momento e Rubi me deixou na companhia de Anúbis e Lótus. Eu estava em prantos com a falta de notícias de Ullieh e bastante irada com este maldito segredo que ela não quis me revelar depois de tanto tempo da ausência de meu amado, que provavelmente estava em perigo por minha causa. Disso eu tinha certeza.

            “Prometo que vai ser rapidinho. Logo estarei aqui, Ávila. Sei que não aprecia minha companhia. Já está suportando muito. Se eu estivesse em seu lugar, realmente não aguentaria por tanto tempo. Com certeza Auriel nos ajudará a saber, o que de fato, aconteceu com Ullieh. Você também vai ficar com ótimas companhias. Ninguém seria louco o suficiente de fazer algo com você. Fique tranquila: vai dar tudo certo!” E assim, a dama ruiva partiu rumo ao encontro com o seu ex-chefe, o líder Supremo da Classe dos Anjos da Morte.



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