Fabíola Santos Alencar[1]
Francisca Raquel Queiroz Alves
Rocha
(imagem do filme Macunaíma)
O presente paper tem como finalidade apresentar uma
análise à respeito do fenômeno da carnavalização literária na obra Macunaíma,
de Mário de Andrade. A carnavalização é uma incorporação dos princípios
carnavalescos, tais como: liberdade do riso, igualdade social, sagrado x
profano, paródia de textos sagrados, ou seja, é uma espécie de transmutação
dessas e outras características carnavalescas aplicadas à literatura.
Sabe–se que Mário de Andrade
pertenceu ao período do Modernismo. Em todas as suas obras, lutou por uma
língua brasileira que estivesse mais próxima do falar do povo, além de abordar
temas relacionados ao folclore brasileiro. Em Macunaíma, o herói sem nenhum
caráter, o autor enfoca o índio, a tradição e mistura de culturas, valendo–se
de profundos estudos sobre o folclore.
A obra em questão narra a
história do índio Macunaíma, jovem preguiçoso, pervertido e ganancioso, irmão
de Jiguê e Maanape, um feiticeiro. Gostava de “fazer pegadinhas” com os irmãos
e também com os seres místicos, como por exemplo o Curupira. Macunaíma seduziu
as mulheres de seu irmão Jiguê, Sofará e Iriqui. Por uma ilusão do Anhanga (Anhangá ou Anhangüera que significa supostamente
"Coisa Ruim". Ele é o protetor da caça no campo e
nas florestas; Anhangá protege todos os animais contra
os caçadores e quando a caça conseguia fugir os índios diziam
que Anhangá ou Anhangüera as havia protegido e ajudado a escapar. Para os jesuítas catequizadores,
Anhangá era comparado ao demônio da teologia cristã)
acabou matando a própria mãe. Com esse acontecimento, eles partem de sua tribo,
mas logo Macunaíma encontrou uma nova companheira, Ci a Mãe do Mato,
tornando–se o novo imperador do Mato Virgem. Tiveram um filho, porém Ci e o
curumim morreram e como se não bastasse, Macunaíma perdera a muiraquitã, uma
espécie de talismã, recordação de sua amada Ci. Essa pedra verde fora vendida
para Vanceslau Pietro Pietra, o gigante Piamã, que morava em São Paulo.
À partir daí começa as
aventuras de Macunaíma e seus irmãos para o resgate da muiraquitã. Eles se
deparam com uma realidade completamente diferente em São Paulo, onde tudo gira
em torno da “máquina”. No final, o nosso herói recupera a muiraquitã. Depois de
aprontar com Jiguê, o mesmo decide não caçar e todos estavam com fome.
Macunaíma envenena o anzol, Jiguê se fere, morre e vira uma sombra que passa a
perseguir seu irmão para vingar–se. A princesa, nova companheira do herói,
adoece de zamparina (doença que prejudica o sistema locomotor e nervoso) e
Maanape teve seu sangue chupado por um barbeiro. Macunaíma muito debilitado, planta
uma semente de cipó e consegue subir ao céu. Pauí–Pódole faz um feitiço e
transforma–o na Constelação da Ursa Maior.
Percebe–se nessa história várias
características da carnavalização literária, de suas formas e símbolos,
apontadas por Mikhail Bakhtin em seu livro A
cultura popular na idade média e no renascimento. A primeira é o riso, “um princípio cômico que preside
os ritos carnavalescos”; é o patrimônio do povo. Segundo Mikhail Bakhtin, “O
riso e a visão carnavalesca liberam a imaginação humana”, que ficam assim
disponível para o desenvolvimento de novas possibilidades. A obra Macunaíma
segue à risco essa característica em que se é possível obter o riso através de
diálogos de duplo sentido, um texto seguido de várias palavras sem vírgula, no
relato de certas ações feitas pelo herói Macunaíma, que culminam na criação de
jogos e ditados populares, alcançando o objetivo desejado que é o efeito cômico,
típico de festivais carnavalescos onde o importante é transmitir a alegria, o
contentamento e a descontração. Como exemplo, temos os dois lemas do herói “Ai!
Que preguiça!” e “Pouca saúde e muita saúva, os males do Brasil são!” e uma
adivinhação proposta pela filha mais nova do gigante Piamã, recheada de duplo
sentido:
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Também nota–se a profanação ao sagrado ou blasfemas dirigidas
às divindades e o personagem diabo que
segundo Mikhail Bakhtin “é um alegre porta–voz ambivalente de opiniões
não–oficiais, da santidade ao avesso, o representante do inferior material”.
Macunaíma vai à um terreiro para que seja feita uma macumba contra Venceslau,
terreiro este visitado por todos os tipos de gente, independente da condição
social, na qual pode–se dizer que há uma quebra
das barreiras que dividem a sociedade, como numa festa carnavalesca, em que
se aboli provisoriamente as diferenças hierárquicas entre as pessoas,
tornando–as uma família. Nesse capítulo existe alguns trechos que podemos notar
o sagrado x o profano, bem x mal
“Vai um rapaz filho de Ochum, falavam, filho de Nossa Senhora da Conceição cuja
macumba era em dezembro (...) Nosso Padre Exu (...)” (págs. 74 e 75).
Destaca–se no livro A cultura popular na idade média e no
renascimento o princípio da
liberdade nos festivais carnavalescos, nos quais a pessoa vive intensamente
esse ideal, essa regra, essa lei, a lei da liberdade, eliminando toda espécie
de regras e tabus vigentes na vida cotidiana. O indivíduo tem o direito de
fantasiar a respeito de sua própria realidade, fato este presente no livro de
Mário de Andrade.
Um dos aspectos marcantes no
carnaval é a morte e a ressurreição do
indivíduo. A morte é vista como uma espécie de renascimento. Na obra existe
três situações em que Macunaíma morre e por meio de algum feitiço retorna a
vida. A 1ª morte é quando o gigante enterra uma flecha no peito do herói e
Maanape, juntamente com a sarara Cambgique e o carrapato Zlezlegue fazem todo
um “ritual” para reviver nosso herói. A 2ª morte é quando um macaco mono “prega
uma peça” e o herói morre, mas logo é ressuscitado pelo irmão. Na 3ª morte,
Pauí–Podolé transforma Macunaíma na Constelação da Ursa Maior.
No livro de Mikhail Bakhtin,
“os palavrões contribuem para a
criação de uma atmosfera de liberdade e do aspecto cômico secundário do mundo”
e acrescenta que existe ainda o “princípio
da vida material e corporal”, onde valorizar–se a imagem do corpo, da
bebida, da comida, da satisfação de necessidades naturais e da vida sexual
(explicitação do relacionamento sexual). Logo no 1º capítulo da obra podemos
perceber essas marcantes características carnavalesca. Como por exemplo,
citamos o personagem Macunaíma “Então adormecia sonhando palavras–feias,
imoralidades estrambólicas (...)” e em outro trecho “Fazia uma coleção de
palavras–feias de que tanto gostava”. O nosso herói também gostava de criar
palavrões, que “caíam na boca do povo”. Na obra, vale ressaltar as constantes
imagens do corpo ( Então bem de mansinho
o herói pôs o sim–sinhô dele na boca do buraco...) e principalmente da vida
sexual, tão presente nos festejos carnavalescos, sob os quais Macunaíma
inventava posições, brincadeiras para intensificar a relação sexual. O
personagem sempre pensava no sexo, até perto de morrer, fez sexo com uma
suposta linda mulher e foi devorado pelas piranhas.
A máscara e a fantasia
fazem parte da caracterização do sujeito e “traduz a alternância das
reencarnações, a alegre negação da identidade e do sentido único”, ou seja, a
máscara representa a metamorfose do personagem. Há momentos em que Macunaíma e
seus irmãos se transformam e objetos e animais, onde nessa transformação
adquirem as qualidades e características que representam tal transformação. Em
um episódios, os três irmãos se deparam com um poço e ao mergulhar nele, cada
um saí de uma cor diferente, o que representa diretamente a miscigenação
brasileira, a fusão das três culturas (índio, negro e branco [europeu]).
O livro também é recheado de
críticas. No capítulo “Cartas pras Icamiabas” nota–se uma crítica em torno do
português clássico x a língua falada (a língua popular) expressado na mistura
de ambos ao escrever a carta. Em outro capítulo, enquanto esperava o índio
Antonio “Macunaíma aproveitara a espera se aperfeiçoando nas duas línguas da
terra, o brasileiro falado e o português escrito”; critica a estrutura social e
governamental da época, onde observar–se uma crítica até a respeito dos
inúmeros feriados existentes no país (“Afinal chegou o domingo pé–de–cachimbo
que era o dia do cruzeiro feriado novo inventado pros Brasileiros descansarem
mais”) e o brasileiro preguiçoso e
oportunista, tão bem representado pelo porta–voz do jargão “Aí! Que preguiça!”;
critica a ganância humana, na qual o homem só valoriza o dinheiro, só pretende
obter mais dinheiro e acaba perdendo os seus valores morais na tentativa de
obtê–lo; e por fim, critica o estrangeirismo e sua influência nos costumes da
época.
REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS:
BAKHTIN,
Mikhail. A cultura popular na idade média
e no renascimento– O contexto de François Rebelais. Editora HUCITEC. 5ª
edição.
ANDRADE,
Mário de. Macuaníma– O herói sem nenhum
caráter. São Paulo, Livraria Martins Editora S.A, 6ª edição.
TERRA,
Ernani e José de Nicola. Gramática,
Literatura e Produção de Textos. São Paulo. Editora Scipione, 2002.
FERREIRA,
Aurélio Buarque de Holanda. Mini Dicionário
Aurélio Escolar. Rio de Janeiro. Editora Nova Fronteira, 5ª edição.
Bíblia Sagrada.
Tradução dos originais mediante a versão dos Monges de Maredsous (Bélgica) pelo
Centro Bíblico católico. São Paulo, Editora Ave Maria.122ª edição, 1998.
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