A chuva diminuía. Eu pressionei um
pedaço do pano sobre o meu corte, para estancar o sangue. A ambulância chegou e
foi prestar atendimento a uma grávida, que estava passando mal. O médico, já
havia constatado a morte do motorista. Depois de muito tempo, lembrei de ligar
de volta para Tessy, mas não encontrei meu celular.
“Por
favor, doutor, eu preciso fazer uma ligação.”
“Nada
disso, você vai para o hospital, garota. Você recebeu uma pancada muito forte
na cabeça e desmaiou.” O cobrador falou do outro lado da ambulância. A minha
preocupação em voltar para casa era tão grande, que eu nem percebi que meus
óculos tinham ‘ido para os ares’.
“Eu
estou bem, doutor. Eu só preciso fazer uma ligação bem rapidinho, por favor!”
“Seu
corte vai levar alguns pontos. Além disso, vamos fazer alguns exames em você,
devido ao desmaio. Queremos ver se está tudo bem com você.” Não adiantava eu
discutir com ele. Tive que entrar na ambulância e ir ao hospital. Lá o médico
me examinou e pediu que eu ficasse em repouso. Depois de algum tempo, eu
acordei com meu pai do meu lado.
“Ávila,
que susto você me deu!” Eu acordei meio atordoada, mas eu estava bem, quer
dizer, minha cabeça parecia uma bomba prestes a explodir e a imagem da
fisionomia do motorista morto, diante de meus olhos não saía de minha cabeça.
“Sua
irmã me ligou com medo porque ela estava sozinha e você ainda não tinha chegado
em casa. Sua mãe tinha ido para a casa de uma colega e essa casa era um pouco
longe de Coldland. Devido a chuva, o sinal do celular estava muito ruim. Mas
ela chegou em casa, sã e salva e está fazendo companhia à sua irmã. Perguntei a
ela se você tinha chegado, aí Tessy me disse que estava conversando com você no
celular, quando ouviu um barulho terrível e você não respondeu e nem ligou de volta.
Lin viu você na TV e me avisou do acidente que acontecera com um ônibus.”
Alguém bateu na porta e logo foi entrando. Era o mesmo médico que estava no
local do acidente.
“Olá,
seu xerife... Ela já está liberada. Tudo ok, mas ela precisa ficar em repouso.”
“Obrigado,
doutor Richard.”
“Lembre-se
mocinha: descanso!”
“Obrigado.”
Respondi. Na tentativa de me levantar, quase tropecei no meu par de tênis.
Agora foi que eu percebi que estava sem meus óculos. Meu cabelo estava
horrível, cheio de fios revoltos, eu parecia um espantalho.
“Você
não quer um boné?” Meu pai falou.
“Acha
que um boné vai esconder essa floresta tropical?”
“Pelo
menos uma parte dela sim. Toma o boné, guria.”
“Obrigado,
pai... Nossa, o boné do xerife!” Nós rimos, enquanto ele me conduzia até o
carro. Na volta para casa, eu me recordei do momento em que aquele desconhecido
falou comigo. Nossa! O desconhecido! Será que aconteceu algo com ele? Se ele
realmente estivesse no ônibus, teria se ferido, desmaiado? Sei lá... Será que
ele estava bem? Tive que reorganizar os meus pensamentos. Ele não estava
naquele ônibus... Eu não o vi. Só senti. E sentir não significa nada.
Finalmente cheguei em casa. Já era 6: 32 da manhã. Me pai insistiu para que eu
repousasse, mas não estava com sono ou me sentindo cansada. Minha mãe e Tessy ainda dormiam no sofá da
sala e silenciosamente, eu e meu pai subimos à escada. Mesmo contra a minha
vontade, ele me obrigou a ficar em meu quarto descansando. Ao deixar-me no
quarto, meu pai pegara um cobertor e enrolara minha mãe e Tessy, que estavam
mergulhas em um sono profundo. Por recomendações médicas, fiquei em repouso e
não fui à escola. Meu pai queria deixar Tessy na escola, mas ela preferiu ir no
ônibus estudantil. Ela nem passou no meu quarto, para ver seu estava viva... Já
minha mãe, apareceu só para me dar uma bronca, aproveitando que meu pai voltara
à delegacia.
“Isso
é o que acontece por ser desobediente. Eu disse que você não demorasse muito,
não foi?”
“E
eu não demorei. Fui apenas na delegacia, peguei o ônibus, só que por causa da
chuva, o transporte demorou muito pra chegar no terminal.”
“Se
você tivesse vindo com a Tessy, da escola direto para casa, tinha evitado tudo
isso. Você me deixou com uma tremenda dor de cabeça. Se eu soubesse que filhos
só vinham pro mundo para dar preocupações aos pais, eu é que nunca havia parido
nenhum.” Eu não aguentei mais essa bronca desmerecida. No fundo, eu sabia que
essa raiva toda dela, era porque sua estimada filhinha havia ficado sozinha no
escuro e algo ruim poderia ter acontecido com ela. De um copo com água, Alexia
fazia uma tremenda tempestade. Mas isso era injusto demais. Eu sei que não sou
uma filha perfeita– e estou longe de ser uma filha perfeita para a senhora
Alexia– mas não merecia receber broncas injustamente. Em vez de perguntar se eu
estava bem ou algo desse tipo, ela vinha querer dar lição de moral.
“Me
deixe me paz! Eu já sei que não significo nada pra você. Bem que você deveria
ter abortado... Assim evitaria todos os problemas que eu causo, não é?”
“Eu
não quis dizer isso, não me venha com seus dramas.”
“Saía
daqui, por favor.”
“Tente
descansar, ok? E sem dramas. Tudo que falo você leva para o lado negativo. Eu
não quis...”
“Saía.”
Tudo que ela falava, soava meio irônico. Era como se minha mãe quisesse me
deixar sem um pingo de paciência e depois tivesse se arrependido de seus
infelizes comentários, achando que eu poderia ‘fofocar’ pro meu pai e depois
ele ir reclamar com ela. Eu juro que não consigo entender o motivo de tanta
raiva que ela tem de mim. Desde pequena, eu percebia isso. Às vezes, ela se
nega a olhar para mim, outras vezes, ela é super legal comigo, outras, nem me
faça lembrar...
Eu
não tive mais vontade de descansar. Minha cabeça tinha ativado um a bomba
relógio. Fui para o banheiro e peguei dois comprimidos de paracetamol. Dois
não... Achei melhor tomar três. Com o tempo, o ‘FBI e a CIA conseguiram
desativar a bomba, antes que tudo fosse para os ares’. Voltei novamente para a
cama e me recusei a ver o irradiante dia de hoje. Fechei a cortina, para que
ocultasse a luz do dia e adormeci na escuridão daquele dia. Depois de alguns
instantes, ouço alguém bater na porta.
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