“Ávila! Venha jantar. Você não almoçou e
assim vai ficar doente. Abra essa porta.”
“Eu
não estou com fome. Eu posso ficar em paz? Posso?”
“Tudo
bem. Mas você tem que se alimentar.”
“Não
finja ser a boa mãe que se importa com a saúde de sua filha bastarda.” Dizia
tais palavras, enquanto afundava minha cara no travesseiro e procurava esquecer
do que havia ocorrido em poucos instantes. Acredito que a última frase,
deixou-a bastante ressentida.
“Nunca
diga isso. Nem de brincadeira!” Com essa declaração, pus o ponto final em toda
essa discussão. Ouvi quando ela desceu as escadas e pela 1ª vez repreendeu
Tessy.
“Você
passou dos limites, menina! Não deveria ter dito aquelas coisas pra sua irmã.
Quando ela vier comer, peça desculpas, senão você ficará de castigo e quando eu
falo castigo, é castigo mesmo!”
“Sim,
mãe.” Falou Tessy, meio aborrecida com a bronca.
Depois
de derramar inúmeras lágrimas, decidi tomar um banho. Eu realmente parecia um
espantalho. Pior ainda: eu parecia um zumbi em vida! Enrolei-me na toalha e fui
até a janela. Lá, fiquei alguns minutos pensando em muitas coisas importantes,
enquanto contemplava a lua cheia. Não sei como, mas adormeci.
Durante
a madrugada, acordei completamente sem noção do tempo. O vento frio que
atravessava a janela aberta emanou arrepios até a espinha. Eu ainda estava com
o roupão de banho, contudo meus óculos estavam na cômoda perto do despertador.
Quando coloquei meus óculos, vi que era 2:30 da madrugada. Vesti um baby-doll e
desci as escadas, rumo à cozinha. Sem tentar fazer nenhum barulho (evitando
assim uma bronca por quebrar regras impostas pela senhora Alexia), abri a
geladeira e comi o resto de lasanha do almoço, quatro pedaços de bolo de
chocolate e morangos com creme de amendoim... Qualquer um poderia duvidar de
minhas ações. Mas eu fiz isso, sim! Quanto mais eu comia, mais eu sentia
vontade de comer. Realmente eu estava descontando toda a minha raiva de hoje na
comida. Depois bebi um copo com água e liguei a TV no mute. Fiquei mudando de um canal para outro, até que decidi
desligar. Até minha vida era mais ‘interessante’ do que os programas chatos que
passava na TV.
Novamente, voltei à cozinha e dessa vez, levei
um baita susto... A porta que levava para a varanda estava aberta. O forte
vento fez com que folhas secas voassem em minha direção. A cozinha ficou cheia
delas. Eu tinha certeza de que a porta estava fechada. Como foi que ela se
abriu? Poderia ser um ladrão?
Rapidamente
fechei a porta, coloquei a tranca e uma cadeira, como se fosse uma armadilha.
Se ela fosse aberta de fora para dentro, a cadeira cairia. Mas e se o ladrão já
estivesse dentro de casa? Minha mãe e Tessy corriam risco. Subi silenciosamente
as escadas e verifiquei os quartos. O de Tessy e o da minha mãe estavam
trancados como sempre. Só o meu quarto que estava aberto, como também os
banheiros.
“O
que eu faço? E se for alarme falso? Talvez minha mãe foi colocar o lixo, deixou
a porta aberta e nem percebeu.” Por um segundo, senti como se alguém estivesse
atrás de mim. Eu congelei de medo. Poderia ser fruto de minha imaginação, resultado
dos acontecimentos de ontem, da visita de Lin e da minha briga com mamãe e
Tessy, mas eu podia sentir que naquele momento, eu não estava sozinha no
corredor. Tomei coragem e olhei para trás. Nada. Ninguém. Somente percebi que
havia um vento muito forte que saía do meu quarto. Não perdi tempo. Peguei um
jarro de vidro, uma ‘arma poderosa’...
Puxei fôlego e entrei no meu quarto.
Tudo
escuro, porém vi a minha janela aberta. Como assim? Eu deixei-a fechada, antes
de vesti meu baby-doll. Olhei para os arredores e tudo parecia normal. Havia
inúmeras estrelas brilhantes no céu. Tudo tranquilo lá fora. O vento frio de
antes, desaparecera. Eu não consegui dormir. Tomei dois comprimidos para conter
a minha dor de cabeça, que começava a se manifestar e decidir limpar a sujeira
da cozinha. A minha sorte foi que praticamente passei a tarde e um pedacinho da
noite dormindo. Na madrugada, vigiei o quarto de minha irmã e de minha mãe. De
vez em quando eu ia até a cozinha ver se a cadeira estava no mesmo lugar.
0 Comentários