PROFESSORES:
Lusival
A Barcellos e José Mateus do Nascimento
ALUNA:
Francisca Raquel Queiroz Alves Rocha
1º dia: 26 de setembro de 2016
Possivelmente eu
chegara cedo para a aula. Ao subir as escadas e chegar à sala na qual seria
ministrada a disciplina, deparei com a porta fechada. Sem nenhuma forma de
saber o tempo, resolvi perguntar a uma funcionária o horário especificamente.
Certificando-me que ainda era cedo (7: 30 h), decidi dar uma volta pelos
corredores do Centro de Educação a fim de sondar alguns cartazes que anunciavam
quitinetes e seus respectivos telefones. Deparei-me com minhas amigas Iranilza
e Penha. Iranilza mostrou-me quem era o professor da disciplina. Ainda o vi de
costas, com sua bolsa e sua “mala ou carrinho” com livros, materiais teóricos
referenciais para a disciplina. Acompanhamos o professor Lusival como sombras.
Digo assim porque sempre estávamos atrás dele. Muito amável, ele pediu que
sentássemos nas cadeiras disponíveis no corredor do primeiro andar do Centro de
Educação, enquanto o funcionário Filipe, munido das chaves, abria as salas. Estranhei
o vai e vem do professor, e aproveitei para na “antessala” conversamos,
colocarmos o papo em dia, e aos poucos, foram chegando rostos até então
desconhecidos, que no final do dia de hoje, seriam tão presentes em minha vida,
como se de alguma forma, todos nós já tivéssemos nos conhecido há muito tempo. Porém,
começou a chamar a minha atenção os elementos que o professor sempre trazia no
seu vai e vem. Logo o seu pedido para que aguardássemos para entrar na sala,
fez com que “caísse a ficha”: o título da disciplina estava apontando o ritual
de acolhida que estava sendo preparado diante de meus olhos, e que no primeiro
momento podia ter passado despercebido. Mas não passou. Assim que tive a
“autorização” para entrar, o professor me saudou com um “bom dia” e confesso
que não olhei-o nos olhos. Sou uma pessoa um pouco tímida e justamente por não
saber sua dinâmica ou ainda não ter alguma espécie de intimidade, preferi usar
a tática de meu mundinho: responder educadamente ao seu bom dia, olhando para o
chão. Não foi sinal de desprezo, mas sim de timidez mesmo. Contudo, visualizei
os símbolos (o caminho, o círculo, a terra, a água, folhas, frutos, etc) expressos
nos elementos no chão da sala de aula, uma espécie de universo. O que me chamou
atenção especialmente foi o círculo em marrom, que me transportou a lembranças
nostálgicas que futuramente seriam compartilhadas. Sentei-me abaixo do
ar-condicionado devido a recuperação de um período de gripe, mas notei as
cadeiras em círculos e presumi que seria aquele espaço no qual eu deveria estar
ocupando. Mas me mantive afastada dele, até que o professor solicitou o meu
envolvimento, onde fui orientada por um colega sobre um canto estratégico em
que os ventos gélidos daquele ar-condicionado não poderiam afetar-me. Contudo,
levei um susto quando o professor anunciou que estava partindo. Como assim? O que aconteceu? O que fizemos?
Mas a aula nem começou? Não era blefe. Ele ameaçou deixar-nos ali sozinhos,
refletindo o que nos levou a forçá-lo a tal atitude. Esta seria a primeira
lição de como podemos quebrar regras que estão presentes em nossa vida e que
agimos como robozinhos programados. O que estávamos fazendo ali, o motivo de
nossa presença era para “assistir aula”. Simplesmente “assistir aula”. Meu Deus, então por que o professor quer ir
embora? Ah! Acho que esse motivo de “assistir” talvez seja a resposta, a qual
uma colega refletiu e expôs para nós. Então os dois verbos “compartilhar” e
“participar” seriam aqueles que substituíram o quase eterno “assistir”. Essa
“inatividade” do ato de assistir é refletido em nossas ações como
profissionais, cidadãos, indivíduos, nas mais diferentes instâncias que
assumimos como participantes de uma sociedade e de seus meios. Este verbo nos
coloca em uma condição na qual aceitamos tudo, não questionamos, nos tornamos
temerosos, repetidores de uma dinâmica que nos prejudica como seres humanos.
Após entendermos o verdadeiro significado de estar presente em uma sala de
aula, recordo-me que foi falado acerca do processo de preparação da aula
(professor e aluno) e outras questões das quais me fugiram a mente. Digito este
reflexório de hoje um pouco exausta e detalhes querem fugir. Por favor, não fujam! O que está mais
vivo agora em minha memória foi que deveríamos nos apresentar para a turma. Fiz
a devida apresentação de quem sou, assim como cada um em poucos minutos, falou
parte de suas vivências e daquilo que é. Duas coisas que realcei em minha fala
e que seriam fundamentais para mim neste dia, diz respeito à questão do resgate
de nossas essências e a quebra ou desconstrução de certas posturas que
assumimos diante da dinâmica de um mundo moderno, que nos força a nos
enquadramos em seu ritmo. Em seguida, fomos submetidos a exercícios nos quais
estavam presentes a menção de ritos que tratam de energia espiritual
canalizada, equilíbrio emocional e limpeza dos pensamentos perturbadores que
nos desestabilizam: foram feitos exercícios respiração, postura, captação de
energia, para que pudéssemos nos conectar com nós mesmos. Só assim é que
estaríamos capacitados para conectarmos com os outros. Sempre durantes tais
ritos, fizemos um exercício bastante bom: o abraço! E o abraço foi deixando de
ser tímido e evoluindo a um estado de que podemos sentir o outro fazendo parte
da gente.
Tivemos dez minutos de
intervalo... Um cafezinho com leite pago por uma amiga e alguns rápidos
comentários sobre nossas primeiras impressões positivíssimas sobre o professor
e sua dinâmica...
Na volta do intervalo,
foi proposto a ida a um espaço (literalmente na grama), onde uma parte da
natureza se faz presente nas construções que alicerçam a Universidade. Lá,
executamos algumas técnicas de respiração, de reconexão, e foi pedido que escutássemos
a natureza que insiste em dizer que ainda vive, diante de tanta “poluição
auditiva”, da falta de percepção e sensibilidade diante da rápida dinâmica do
mundo moderno, etc. Acho que o exercício de prestar atenção a tudo que está ao
nosso redor, esse exercício de saímos do posicionamento de “centro do mundo” é
importante para aguçar a nossa sensibilidade. Em seguida, a próxima atividade a
ser realizada no máximo em dez minutos seria estar conectado a uma árvore, no
qual tentaríamos ouvi-la, senti-la, transportar um pouco de sua energia, ver as
marcas de sua existência, a sua utilidade... Além disso, pegaríamos algo que
refletiria a algum significado daquela experiência. Assim que foi falado isto,
virei e peguei uma flor que estava atrás de mim. Eu e Otávio escolhemos a mesma
árvore. Ficamos ali em silêncio, na tentativa de ouvi-la e senti-la.
Circulei-a, analisei-a e peguei uma lasca de seu velho e precioso caule e uma
pedra que estava na proximidade da mesma. Passado este momento, dirigi-me até a
sala de aula e cada um foi depositando no círculo sagrado os elementos pegos
anteriormente, explicando a relação simbólica de cada um deles. Dentre os que
eu tinha em mãos, escolhi a pedra e depositei-a no início do caminho do círculo
sagrado para que sempre lembremos do ditado “caia sete vezes, levante-se oito”,
ou seja, sempre no caminho de flores, beleza, sonhos, em busca do centro de sua
existência ou autorealização/autodescoberta haverá uma ou várias pedras, e que
recordemos que sempre teremos uma força ainda maior para levantarmos. Houve
após esse momento, alguns esclarecimentos acerca das próximas atividades
relacionadas a disciplina.
Pausa para o almoço...
Assim que recomeçou as
nossas atividades, participei juntamente com meus colegas, de um rito do qual
deveríamos tocar o instrumento ritualístico indígena maracá do jeito que nosso
espírito sugerisse. Ao explicar sobre o que as peças do maracá significava,
fora distribuído as sementes que estavam depositadas em seu interior a cada um
dos participantes daquele círculo fraterno. Cada um dizia uma palavra: escolhi
a humildade, pois para mim é um dos princípios mais importantes do “fazer ser
humano”. Em seguida, ao colega da esquerda, o da direita munido de sua semente
deveria desejar-lhes algo. Desejei serenidade para minha colega Ana. Posteriormente,
alguns esclarecimentos foram fornecidos para que aflorasse a discussão sobre as
três palavras que formam o título da disciplina (e que dizem respeito a ótica
indígena, ponto de partida da exploração vivencial dessas palavras): mito, rito
e espiritualidade. O mito foi definido como as histórias que o homem busca
explicar o universo ligando-o às divindades. Muito relacionado ao mito está o
rito, visto como fruto da crença particular daquele indivíduo, que no meu caso
é a crença católica. Mas o rito extrapola a questão da religiosidade, pois na
simples repetição de atos cotidianos dentro de um espaço de tempo, temos ali
vários ritos, conforme nos fora explicado. E por fim, a espiritualidade
consiste em acreditar que tudo é energia, que temos como alcançar alguma
espécie de transcendente através do modo como nos tornamos pessoas melhores,
independente de nossos credos. E ainda fora acrescentando informações sobre os
povos indígenas que constituíram o centro de nossos estudos: os Potiguaras e os
Tabajaras. A generalização da figura do índio, por meio de características
estereotipadas também foi lembrado. Tais informações sempre seriam
complementadas com mais profundidades por meio das leituras referenciais sobre
os temas apresentados. Naquele momento foi dado uma noção da quantidade,
localidade e história de ambos os grupos indígenas, dados esse que me recordo
apenas que existem 20 mil índios Potiguaras vivendo em um território de 35 mil
hectares no norte da Paraíba. Os Tabajaras, em uma quantidade muito menos
(apenas 755) mostra-nos também as marcas das formas de repressão, perseguição,
morte e preconceito. Foi falado sobre a história dos europeus e suas intenções
na invasão do Brasil. Em 1501 foi ancorado uma caravela na Bahia da Traição. E
é a partir daí que as perseguições aos índios paraibanos começa, fazendo suas
primeiras vítimas, de muitas outras formas: a exploração dos índios que
trabalhavam nas indústrias de cana-de-açúcar; posteriormente os índios foram
colocados em aldeiamentos como São Miguel (Baía da Traição) e da Preguiça (Rio
Tinto). Uma ordem religiosa “oferecia-lhes” a catequização. Alguns dos índios
fogem para não ficarem no aldeiamento. E assim, terminou mais um dia de aula:
com agradecimentos pela presença, lembretes sobre levar um objeto sagrado para
a aula do professor Mateus e a leitura de um livro referencial para a
participação e as trocas de conhecimentos na aula de amanhã.
bA nota da avaliação de hoje foi zero.
Como assim um zero? Eu atribuía como
significado a nota zero no passado a alguma falta de estudo, de entendimento ou
dedicação. Contudo, pude pensar em outra simbologia que podemos atribuir ao
zero neste aspecto: em uma prova, por exemplo, pode significar que dentro da
dinâmica pedagógica da cobrança em sala de aula, eu, em um dado momento de
minha vida, não fui bem em expressar as corretas soluções para os enigmas a
serem “assinalados” nos métodos avaliativos propostos. Mas isso não significa
que não aprendi... Hoje em dia, vejo o zero
como algo que remota a um início de um ciclo, que deve ser iniciado
corretamente, caso o objetivo não seja atingido; que nos instiga não a
desistirmos, e sim, a buscar cada vez mais evoluir. Então esta nota é pela minha
falta de preparo antes da aula, por eu ter vindo em um primeiro momento para “assistir
aula”, por estar cheia de barreiras a serem “desconstruídas”, que me foram
impostas por todos os sistemas, que nos fazem “robozinhos programados”, como eu
falei anteriormente. Contudo, no final da aula, eu consegui fazer aquele
resgate que a modernidade tenta roubar do ser humano a qualquer custo, e que
devemos sempre lutar para que nossas essências prevaleçam independente dos
julgamentos que os outros venham a fazer. Essa
nota, reforço, não é algo negativo, e sim um pontapé inicial para que eu busque
uma conexão com o transcendente que permanece tão perto de nós, e ao mesmo
tempo, distante, pelas barreiras ou paredes que tentam nos impedir de
vivenciá-los.
2º dia: 27 de setembro de 2016
Novamente chego a tempo
de ter uma conversa com alguma das colegas de sala de aula, antes de entramos
no recinto. Todos com quem conversei ainda estavam em estado de êxtase com a
possibilidade de “quebras” que foi proporcionado a cada um de nós na aula
anterior, provocando profundas reflexões em nosso jeito de “ser robozinho”
também. Foi pedido pelo professor Mateus, (assim que o mesmo preparou a sala
para nos acolher, e assim que adentramos naquele espaço), que depositássemos no
solo sagrado os objetos sacros que trouxemos. Houve uma explicação sobre os
objetos sagrados que ali estavam expostos: um representando o povo Potiguar e
outro de um povo indígena do Rio Grande do Norte. Um a um, as pessoas se
levantaram e depositaram velas, terços, bíblias, colares, “mandalas místicas”,
dentre outros. Sendo a minha vez, assim repeti o rito: depositei meus três
cartões de imagens de Anjos. Em seguida, foi pedido que cada um explicasse o
valor de representatividade daquele objeto sagrado, falasse um pouco sobre si,
e assinasse seu nome em uma folha, substituindo a retirada de seu objeto
sagrado pelo nome. Cada elemento sagrado apresentado dizia respeito a um
aspecto da nossa cultura religiosa. No meu caso, os cartões dos três Anjos- São
Miguel, São Rafael e São Gabriel- são entidades sobrenaturais e místicas
presentes no universo católico do qual faço parte e o significado deles em
minha vida, diz respeito ao dia no qual comemora-se ou celebra-se esses três
Arcanjos: 29 de setembro, de acordo com o calendário católico, que
coincidentemente é o dia do meu nascimento. Eu
sempre acreditei nesses seres e em suas missões de anjos-guias, presentes em
nossa vida, nos direcionando em dificuldades. Posteriormente fora explicado
algumas diferenças entre o que vem a ser religiosidade, esta carregada por
certos preceitos, e espiritualidade, que é mais abrangente e funciona como um
canal de comunicação com o transcendente.
Após essa explicação
fomos indagados por uma questão: Qual é o seu mito? A resposta está vinculada a
uma reflexão daqueles objetos que trouxemos e seus respectivos significados que
dizem respeito também a linha tênue dos mitos e realidades que contribuem para
dar sentido a nossa vida, como fora dito pelo professor Mateus: “Mito e
realidade apresentam uma interdependência que se sustenta desde o início da
humanidade, que apresenta-se em diferentes formas na realidade. A mitologia
grega sistematizou os mitos, mas devemos ver os mitos como os primordiais para
termos ideia de outros aspectos ou modelos de mitos”. Falou-se que nos textos
escritos há também representações da realidade, seja pela “estratégia” da
repetição como elemento associativo da memória em relação aos mitos. Contudo, a
base oral não permite a unidade da escrita, pois um exemplo seria o final da
mesma história que é diferenciada em outras formas de representatividade. Então o mito se materializa na realidade,
pois o mito não é uma “estória” e sim “História” que liga-se as discussões
sobre a origem da humanidade, com a finalidade de responder as perguntas mais
curiosas e enigmáticas acerca de nossa origem, o que estamos fazendo aqui, qual
nossa missão, e o que acontece no pós-morte, por exemplo. Fala-se tanto em
mito... E qual seria a sua diferença em relação a mitologia? Ambos se divergem
ou convergem? Foi dito que o “mito se sustenta por si só e a mitologia seria o
estudo do mito”. Segundo citação de Eliade dita na aula “o mito não está só na
mitologia grega (...) Ele foi oriundo bem antes da escrita”, e possui a
finalidade de evitar a falha da memória coletiva de um povo ou numa tentativa
de unificar a sua história. Mas a memória coletiva, muito antes da escrita, era
formada por pinturas e a própria oralidade que permitia a perpetuação do fazer
“História”. Sobre essa “História”, ela sempre existiu na produção humana, segundo
o debate que tivemos, enquanto que a historicidade está na invenção da escrita,
como uma forma de escrever “História e estórias”. Enfatizando essas questões,
foi a vez de sermos apresentados as definições sobre os três tipos de mitos: os
que explicam o passado (cosmogônico), o presente e o futuro (escatológico). No
período da tarde “destrincharíamos” mais acerca deste ponto, já que estava na
horado intervalo para o almoço.
Voltando às 14 horas
para a sala de aula, fomos pego de surpresa com uma pergunta que seria o
pontapé inicial para discutirmos e entendermos sobre os mitos: “O que penso do
meu futuro?” Com os nomes assinados nos papéis e dispostos agora na lousa,
tínhamos a nossa dupla. Nesta atividade, meu parceiro foi Otávio: pensamos em
duas respostas referente a um futuro curto e um mais longo: o meu colega no
futuro curto gostaria de ser doutor, concluir seu curso, e a longo prazo, ter
uma boa carreira acadêmica e assim, poder realizar seus sonhos. No meu caso, a
curto prazo gostaria de finalizar o meu mestrado e a longo, passar em um
concurso e consequentemente, investir em minha arte como escritora, de forma a
contribuir com meus escritos no mundo literário e na sociedade. Terminado esta
dinâmica, foi dito que o mito é uma perspectiva de construir o futuro, de dar
sentido a nossa existência, refletindo em nossas projeções ou ações, em nossas
premeditações, mesmo sem ter certeza se o que desejamos vai acontecer ou não. O
conceito de mito de origem foi explanado, mas eu tinha uma curiosidade, antes
de nos aprofundarmos nesse tema: qual
seria a diferença entre mito e lenda? A marca que afirma algo como mito
está ligado ao seu caráter de sagrado, aos ritos e símbolos, pois ele é
princípio da crença, dentre outros conceitos já expostos anteriormente. Sobre a
lenda, esta narrativa pode em sua essência ter um caráter de moral baseado em
fenômenos sociais e culturais. Com essa distinção foi definido que os mitos
relacionados a cosmogonia são reatualizados. Sobre os mitos escatológicos que
abordam o futuro, no livro de Eliade, é dito que o povo hebreu utilizou-se dos
mitos como uma perspectiva para entender o apocalipse, que seria um fim no qual
inaugura um novo começo, uma nova etapa evolutiva onde alcançaríamos a
imortalidade. Por fim, foi perguntado: O que essa aula e a disciplina como um
todo estaria nos ajudando no objeto de pesquisa... No meu caso, especialmente
sobre as definições e o mundo dos mitos, esse conhecimento serviu para que eu
pudesse entender as histórias e participações mitológicas da personagem Lilith,
meu objeto de pesquisa, cujo o trabalho, por meio de um estudo intersemiótico,
pretende abordar a construção, desconstrução e reconstrução do símbolo de
Lilith através de um viés religioso (que entrariam os seus mitos nos mais
diversos aspectos culturais/históricos/religiosos) e literário, afim de que
entendamos as diferenças e semelhanças que permitem a convergência e transformações
desta personagem desde a antiguidade, até os ideias modernos aos quais estão
vinculados sua imagem. Para finalizar a aula, antes de nos abraçarmos como
todo, o professor sugeriu que escolhêssemos um símbolo que nos representava
naquele momento: ao passar o baú, com os mais diversos desenhos destes
símbolos, deparei-me com a lua, logo escolhida por mim. Na explicação sobre a
escolha, relacionei-a com a questão do meu romantismo, de acreditar que a lua é
uma eterna observadora dos amantes, que a lua inspira-nos (a mim
especialmente); gosto da lua porque também sou muito apaixonada pela imagem de
Nossa Senhora do Apocalipse, que contém uma lua debaixo de seus pés, e acho uma
das mias bonitas representações católicas da virgem Maria, e por fim, alio a
lua ao meu objeto de pesquisa: Lilih é vista como a lua negra. Não posso deixar
de dizer que no final da aula, tivemos um abraço como todo. Nos envolvemos em
um círculo, sentido a energia de cada um fluir, e lembrando que todos somos um.
O professor Mateus conduziu de forma exemplar a aula, com uma metodologia perfeita,
onde também proporcionou a participação de todos.
A nota da avaliação de hoje foi sete.
Senti-me bastante familiar com o texto, pois já havia tido algum contato
com os apontamentos apresentados em outros livros sobre o tema.
3º dia: 28 de setembro de 2016
Expresso-me
através de versinhos poéticos este reflexório, dividido em três partes: uma que
significa o rito do abraço, como uma forma de acolhida e conexão com o outro; depois
sobre o que seria identidade, já que foi um forte ponto levantado por um
colega, acerca da suposta perda da identidade indígena visto a absorção das
culturas ou modernidade, e senti-me instigada a escrever sobre isso; tivemos um
ritual desenvolvido pelo colega Anderson, levado por sua curiosidade de
descobrir sobre o que era e o que significava os objetos depositados no solo
sagrado deste dia.
Parte 1: Introdução ao rito
Peça licença aos espíritos
Entre em transe sem medo
Concentre-se em encontrar
A única verdade que cresce fora de
ti
Uma raiz desconhecida e preciosa
Mantendo-o ainda em pé, dia após
dia... Abrace-a!
Todos
somos um
Em círculos dispostos
Energias desejam flutuar em meu
universo
Permitimos enxergar a alma alheia
Através de olhos flamejantes
Busque a si mesmo no outro
Ao redor de mãos tocáveis, você
encontra a essência humana
Fora de controle das máquinas
danificadas
Da modernidade que honra a corrida
do tempo
Ausente de sensibilidade, somos
programados
Em círculos dispostos
Energias desejam flutuar em meu
universo
Permitimos enxergar a alma alheia
Através de olhos flamejantes
Busque a si mesmo no outro
Nunca deixe que a legião domine a
sua luz
Seja o centro do próprio universo a
crer
Todos somos um nesse abraço mútuo
E se ausentes da espiritualidade,
somos desvairados
Por que não devo estar junto a ti?
Por que não há respostas que possam
permanecer ocultas?
O divino está no templo de seu
corpo
Erga o palácio mais belo de ações e
não palavras
Em círculos dispostos
Energias desejam flutuar em meu
universo
Permitimos enxergar a alma alheia
Através de olhos flamejantes
Busque a si mesmo no outro
Comande a extensão de seu nirvana e
introduza
Mais amor neste mundo já corrompido
Uma
Nós
somos a árvore da vida
Nós
somos a árvore do tempo
“Não tema, eu posso entregar a
chave e libertá-lo da corrente,
E posso condená-lo a danação, uma
escolha tentadora?
Eu sou aquilo que você não pode ver
Mas sente todos os dias a
perturbação
Me chamam por vários nomes
Já escolhestes o seu?”
-Eu sou a mais pura energia a
duelar com o caos em mim
Este é o teu nome
Eu estou liberta de meus medos
neste abraço
E busco o véu da eternidade
Em círculos dispostos
Energias desejam flutuar em meu
universo
Permitimos enxergar a alma alheia
Através de olhos flamejantes
Busque a si mesmo no outro
Parte 2- O outro como alter ego
Olá! Eu ainda estou aqui
Olhando
Sorrindo
Esperando
Rezando
Chorando
Mutilando
Vivendo
Crescendo
Morrendo
Quando vai notar a minha
existência?
Negar não é esquecer
Você adoece
O corpo
A alma
Toc, toc
Nenhum espírito por trás desta
porta?
Mudando os traços da metamorfose
Não há uma borboleta dourada em mim
Somente o outro como alter ego
A negação da afirmação de sua
identidade,
Ou a reformulação de sua
existência?
Parte 3-A semente
Uma urna mágica passada
De mão em mão a pura energia
Eu penso e canalizo
Meus pedidos distantes
E fico esperando o agora
Fazer acontecer o que eu sei
Eu tenho o poder
De acreditar em algo a mais
Eu planto e colho
Amor e dor
Mas deixe ir o que prende
O pássaro de alcançar o alto céu
Sobreviva e resista
Acredite na semente
Faça um pedido
E em seu coração
Deposite a semente.
Terra
Mãe de cachos negros sobre o véu
rubro de nossas lágrimas
Alcançaremos o perdão de nosso
imperdoável crime contra ti?
Tantas demagogias e diferenças
fizeram amigos se converterem em inimigos
Não há religião melhor do que a do
amor
Redenção ou punição, minha Mãe?
Pois ferimos inocentes
Pois ferimos inocentes!
Mãe, cujo o leite para alimentarmos
tornou-se o mais puro veneno
Alcançaremos o limite da
consciência em outra era?
Tantas tecnologias no avanço de
nosso próprio apocalipse
Não há mais sinal da Mãe-Terra
aqui?
Eu nunca desejei ardentemente o
recomeço
Pois ferimos inocentes
Pois ferimos inocentes!
A Terra é a conexão individual do
complexo nervo coletivo!
A nota da avaliação de hoje foi nove,
pois estou cada vez mais participativa em sala de aula, contribuindo com os
meus pensamentos expressos na fala, para que mais um conhecimento seja
compartilhado aos meus demais colegas de classe, e até como a forma na qual
escolhi fazer o reflexório do dia de hoje, acrescentando uma prática literária
na qual expresso o máximo de minha sensibilidade.
4º dia: 29 de setembro de 2016
Hoje é o dia do meu
aniversário de 30 anos e com certeza visitar pela primeira vez na vida duas
aldeias indígenas seria parte de um momento único e mágico em minha vida. Assim
que acordo, vejo em minha cama um presente: um livro chamado “A sombra de Allan
Poe”, um romance sobre a morte misteriosa de um escritor que me inspira: Edgar
Allan Poe. Estou certa de que hoje tem tudo para ser um dia incrível. Lembro-me
de ler algo sobre a história dos Tabajaras, já que não possuía nenhum contato
com a história da Paraíba em geral, e especificamente dos Tabajaras ou
Potiguaras. Finalizado a leitura, dirijo-me ao Mercadinho a fim de comprar o
alimento que seria compartilhado na nossa janta na aldeia. Feito a compra,
retorno ao apartamento e literalmente arrumo minhas malas para a nossa viagem à
aldeia no período da tarde, cheia de ansiedade em relação às experiências que
vivenciaríamos naquele curto espaço de tempo, mas que se eternizariam. A turma
desta disciplina tinha criado um vinculo afetivo muito grande e inegável.
Reforço que em um espaço de quase cinco dias de aula, parecia que nos
conhecíamos de uma outra vida. Cada um podia se expressar livremente, sem medo
de ser repreendido ou ridicularizado, contribuindo na construção do saber. Cheguei
na praça do CE por volta das 13:30 h e encontrei-me com minhas colegas que
parabenizam-me. Não pude deixar de ficar surpresa e sem palavras diante de
tanto carinho recebido. Fiquei até sem jeito, pensando que não era merecedora
de tudo aquilo que as meninas trouxeram (e que arquitetavam ainda mais). Algumas
delas me presentearam e outras, só a presença e os votos de felicidade que
fizeram a mim, foram essenciais para ampliar o meu momento de felicidade. Nos
dirigimos a van, já que estava na hora de partir, contudo confesso que meu
coração estava na mão ainda...
O clima não poderia
deixar de ser eufórico acerca do que nos aguardava. Já na van, o professor Lusival
contou sobre a história dos Tabajaras, e confesso que nunca imaginei uma
história tão sofrida, de negação e recuperação de sua identidade e da luta pelo
direito a terra. Estava atenta a explicação, mas também dediquei um olhar para
o trajeto ao qual fazíamos. Passado um determinado tempo (acho que era umas 14:
40 h), chegamos ao nosso primeiro destino: a Aldeia de Gramame. O espaço era simples, mas acolhedor. Todos já
estavam ali, nos aguardando. Sentei-me numa posição ao qual poderia visualizar
os membros daquela comunidade por completo. Logo me muni da caneta e do
caderno, cujo os primeiros rabiscos da fala do cacique Carlinhos Tabajara, representante daquele grupo, seriam
anotados. Carlinhos explica que a origem de seu nome diz respeito a um nome
histórico de guerreiro arapuã. Assim que finalizou sua apresentação,
solicitou-nos que também fizemos a devida apresentação para que ele pudesse nos
conhecer. Assim, disse meu nome, o curso ao qual pertencia e a emoção pela qual
estava sentido por estar pela primeira vez em uma aldeia indígena.
Foto: Índios da Aldeia do Gramame reunidos
Fonte: Raquel Alves, 2016.
Em seguida, após nossa
apresentação, é iniciado um ritual de
pedir licença ao deus Tupã, aos seus antepassados para realizar a sua reunião,
nos incluindo nesse momento. Com uma espécie de cachimbo, e dando “baforadas”
no ar, Carlinhos percorre aquele círculo, nos encarando nos olhos, até que no
centro de um tronco, que sustenta o espaço no qual nos encontrávamos, dá uma
baforada maior em um círculo, que funciona ao meu ver, como um portal de
comunicação com o mundo espiritual, do qual adquire o consentimento para que a
reunião realmente comece. E logo no início desta, não podia deixar de lembrar
com nostalgia e dor aqueles aos quais não tiveram a oportunidade de estar aqui
conosco “e foram embora para outra vida
com sede de direito”. Ele afirma que sua missão é realizar feitos em prol
da coletividade, sem desejos de ambição, apenas lutando pelo o que é de direito
do povo.
Durante a história
dessa comunidade, que passou 150 anos sem saber de sua origem, 10 anos atrás
começou o chamamento e a luta pelo reconhecimento como índios Tabajaras e
assumir sua identidade, sem medo de represálias. Muitos deles vivem ainda nas
periferias da cidade de João Pessoa, perdidos na marginalidade, sem
oportunidade ou condições dignas de sobrevivência. Outros, envolvidos nesse
mundo sombrio das drogas e violência, perderam suas vidas, sem terem a
oportunidade de se libertar das correntes da opressão.
Naquela reunião,
Carlinhos Tabajara dividiu-a em temas, de forma sábia, com a finalidade de
abranger nossa curiosidade, mesmo em um curto espaço de tempo no qual teríamos
que permanecer naquele recinto. O primeiro tema foi sobre a terra. Atualmente, os índios da aldeia
do cacique Carlinhos vivem nas terras que guardam lembranças de muito
sofrimento: lá fora a fazenda na qual alguns Tabajaras foram escravos em sua
própria Terra. “Fomos muito judiados e
com medo de assumir quem a gente era”, disse o cacique, pois naquela época,
assim que descobriam que tal pessoa era da etnia indígena, aquele ser era
brutalmente morto nas mãos do homem opressor, representado pela família Lundgren.
Os Tabajaras anseiam por uma demarcação de terras a fim de que possam
sobreviver dignamente, direito esse tão reforçado na constituição e que na
prática não condiz com a realidade de um país, onde a concentração de renda e
territorial, muitas vezes, é má distribuída. “Antes de morrer, eu quero deixar o meu povo vivendo na terra
harmonicamente, com sua cultura, com sua liberdade e sendo feliz”, além e
lembrar que “Terra de índio, nem se
vende, nem se troca”, foram as palavras proferidas pelo representante
daquela aldeia, que acrescenta a dívida que a cidade de João Pessoa tem com o cacique
Piragibe, que nas palavras proferidas por aquele líder, teria sido um colaborar
presente na época de surgimento da cidade de João Pessoa.
Sobre a história de seu povo, segundo tema,
esta é marcada também por uma disputa com o povo Potiguara, outra etnia
indígena em João Pessoa, na qual tal estranheza que originou a disputa foi
incentivada pelos portugueses que aqui chegaram. Contudo, quando o sofrimento
de ambos os povos foram focalizados nas artimanhas dos portugueses, o
posicionamento daqueles povos distintos foi de unir forças diante de um
objetivo em comum: lutar contra o homem branco, que em cada toque seu, destruía
a terra, a cultura e escravizava os povos indígenas ou não. Hoje em dia,
Potiguaras e Tabajaras estão de mãos unidas, enfrentando as adversidades que
ainda persistem não só em relação ao povo indígena, mas em todos aqueles no
qual o princípio de identidade, alteridade e pertencimento é questionado.
Fomos introduzidos ao
próximo tema: a cultura, que
envolvia o aspecto de espiritualidade e de alguns de seus ritos que envolvem a
entidade máxima que é a Mãe-Terra e o principal (e o mais aguardo por mim) o
Toré. Antes de falar sobre tal ritual, o cacique Carlinhos narra o processo de composição das músicas que estão
presentes no Toré: “Cada música nossa é
um pedido (...) O tema é louvar a Mãe-Terra”. Muitas vezes, é na conexão com o além, por
meios de seus antepassados, que vem a inspiração das letras e melodias das
músicas que iram compor o Toré. Outras vezes, o silêncio parece propiciar o
equilíbrio de pensamentos e o contato com a natureza, expressando um canal
imprescindível para que se alcance a sensibilidade necessária para captar as
palavras certas na ocasião em que estão prestes a compor o louvor para o
próximo Toré. Em certas ocasiões, o cacique nos lembra que a mesma inspiração
que incita uma música pode levá-la embora do mesmo jeito, que “se não anotar, esquece”. É recordado
que, o estado de espírito de quem oferece-se como tabernáculo para a conexão
com os ancestrais para receber orientações sobre a música a ser composta, é
fundamental: “É preciso estar limpo de
pensamentos, limpo o coração e mente” para que se alcance esse objetivo.
Entendemos que a Mãe-Terra ou a Natureza é a divindade
máxima, que cuida de todos do nascimento à morte. “O tempo que dá é o tempo que tira: é assim que a natureza divina
trabalha”, diz cacique Carlinhos. Como divindade aliada ao espaço de
convívio entre eles, é reforçado “o
grande pecado de vender a nossa própria Mãe”, em relação aos proprietários
que se apoderam de espaços e os vendem mesmo não sendo os donos efetivos, ou
usando de má fé para lucrar em seus negócios com a terra. Mesmo na utilização
de elementos da Mãe-Terra para o bem estar e sobrevivência indígena, é pedido a
sua permissão, por exemplo, para cortar um pé de árvore que servirá como parte
da construção de sua casa. Em seguida, é apresentado alguns dos instrumentos do
toré e as armas: a buduna, é o pau no qual o cacique Carlinhos está segurando,
que funciona como uma forma identificatória de liderança, uma demarcação de
hierarquia no sentido de mostrar quem é autoridade daquele povo, quem responde
por aquele povo; já o maracá é um instrumento musical que, nas palavras do
líder da Aldeia de Gramame, “quando
balançado é para reivindicar nosso direito”. É claro que essas definições
são apenas uma, diante da infinidade de significados que cada membro do grupo
pode atribuir a dado objeto/instrumento. Foi explicado o significado das cores
preto e vermelho no contexto daquele grupo: a primeira diz respeito a lembrar
de sempre lutar por seus direitos, independentes da barreiras/dificuldade; e a
segunda cor, significa a cor da guerra, o sangue.
Foto: Cacique Carlinhos da Aldeia de Gramame
Fonte: Raquel Alves, 2016.
Cacique Carlinhos fala
que é preciso estar atento a evolução do
tempo, (“termo correto, porque o
desenvolvimento tira direitos”, em suas palavras) e mesmo, eles tem que
saber como aliar e separar em dados momentos, a tecnologia. Essa evolução,
consequentemente, não indicaria o esquecimento de sua origem, conforme fora bem
lembrado. Mesmo sabendo de remédios naturais, por exemplo, há a necessidade de
comprar em farmácias; a busca por graduações ou conhecimentos, dentre outras
não indica uma perda da identidade indígena, e sim uma condição de mesclamento
de culturas, na qual o indígena também firma o seu lugar na sociedade. As lutas
para se fazerem presentes nas instâncias da modernidade, dizem respeito ao
processo de reconhecimento, que todos nós buscamos, como bem lembra o cacique. Esse
conhecimento adquirido também é uma forma de ser repassado como cultura para as
demais gerações de seu povo e não deve ser desprezado também, pois faz parte da
evolução, conscientes que “a gente nunca
aprende tudo”, afirmando humildemente a sua condição de eterno aprendiz da
vida.
Sobre o tema sobre a lei indígena. A revolta alimentada não
só pelo Carlinhos Tabajara, é sobre a PEC 215, que seria uma forma de “rasgar”
os direitos que assistem a constituição de 1988, e que prejudicaria ainda mais
o povo indígena, que vive ainda tão escondido no véu do tempo e da modernidade
de nossos tempos, no que diz respeito a valer os seus direitos básicos.
Havendo, pois, uma
quebra dos temas, Carlinhos volta para o tema de tradição ou cultura dos
Tabajaras, quando começa a falar sobre casamento
e os rituais que o precedem, reforçando que mesmo nos primórdios, quando “os
índios andavam nus”, de acordo com a visão apresentada em vários livros de
história, mesmo “nus”, cada um olhava para o outro com respeito, pois viam-se
vestidos e revestidos de valores morais, os quais, sabemos que não condiziam
com os valores de nossos exploradores, os colonizadores portugueses. Especialmente
na tradição Tabajara, havia um teste a ser feito pelo homem que desejasse casar
com determinada moça. Esse teste, além de provar que tal sujeito era merecedor,
admitia que ele podia ser um grande líder em um futuro próximo, que garantiria
a perpetuação da tradição daquele povo. Segundo Carlinhos, o jovem disparava
uma flecha, que ao fazer a devida curva, devia cair de frente ao dedo grande do
pé do indivíduo. A simbologia por trás deste teste determinava que além de um
bom atirador, tal sujeito seria um possível bom líder. Depois de realizado o
casamento, no qual, a moça aguardara reclusa que o jovem “noivo” fosse
vencedor, o casal deixaria a aldeia juntamente com um grupo de indivíduos, que
os seguiriam rumo a uma nova vida.
Em seguida, retoma ao
tema sobre “cantar Toré”. Antes de nos introduzir aos cantos do Toré, ele nos
saúda como “indigenistas”, ou seja, nas palavras do cacique “o povo que gosta do índio sem mau
pensamento”, ou seja, sem estereótipos. Agora, com um número pequeno, mas
interativo de pessoas, com suas respectivas caracterizações e instrumentos é
iniciado o “canto do Toré” e sua dança ao redor de um círculo menor, delimitado
pela presença de seus corpos. Sua dança situava-se ao redor que compreendia o
grande tronco que sustentava a estrutura que nos acolhia. Extrai alguns trechos
de suas cantigas: “É Deus no céu e Índio
na Terra/ Vamos ver quem pode mais!”; “Na aldeia dos Tabajaras/ Tem o reino dos
Encantados”; “Tabajara é guerreiro/ Tabajara é quem vai guerrear/ Guerreia na
Terra/ Guerreia no Mar”; “Vamos meu irmão/ Que uma noite não é nada/ Quem
chegou foi Tabajara/ No romper da madrugada”; “Desenrola essa corrente/ E deixa
o índio trabalhar/ Quem deu esse nó, não sabe dar”. Nesse momento, o líder
da aldeia, pega na mão de cada um, no gesto de saudar-nos novamente, olhando em
nossos olhos e o professor agradece por todo aquele conhecimento, do qual nos
foi permitido beber da fonte por um breve momento. Aplaudimos, excitados pela
experiência, e tiramos algumas fotos. E por fim, foi distribuído algumas
roupas, alimentos e brinquedos.
Nos dirigimos agora à
van, pois havia mais estrada a seguir em direção a próxima aldeia: a de
Vitória, também no município do Conde. Não pude ir na van, já que não poderia
ir alguém em pé por causa da fiscalização, então cedi meu espaço para o
professor, e fui com o Otávio e a Michele, no carro de uma professora da UFPB
do campus de Mamanguape. Conversávamos sobre as impressões ainda frescas, desta
primeira visita e ansiosos pelo próximo momento: o contato com a referida
aldeia já citada.
Não sei exatamente que
horas era. Estávamos em mais um solo Tabajara. A Aldeia da Vitória era um espaço maior, “mais agraciado” em termos
de estrutura, mas que não me passou um momento de espiritualidade tão profundo
(no bom sentido, não que aquele lugar seja desprovido de espiritualidade, mas
no sentido de me fazer sentir arrepios), tal qual pude sentir na primeira
aldeia. Contudo também foi um momento especial. Jovens estavam sentados, uns
pintando os outros como uma tinta artesanal de jenipapo, que durava entre 10 ou
15 dias. Fiquei tentada por ser pintada. Gostaria de ter tido coragem e ter me
submetido a “sessão de pinturas”, contudo, sentei-me e aguardei a chegada do
cacique daquela comunidade: Ednaldo,
o famoso Tabajara de uma lenda profética,
que aborda um aspecto que não deixa de estar inserido no meio cosmológico de tal cultura.
A saudação inicial do
cacique foi #ForaTemer, o que mostrou o seu posicionamento e articulação no
mundo político, no bom sentido. Ele pediu que cada um se apresentasse, antes de
contar um pouco de sua história. Novamente, falei meu nome e o curso ao qual
pertencia, agradecendo pela oportunidade de estar em sua companhia.
Antes de apresentar sobre
sua origem, foi feito um rápido panorama da história dos Tabajaras, que são
originários muito além das localidades que abrangem o Rio São Francisco. Por
volta de 1573, aconteceu o primeiro encontro/choque com o povo português, que
chegara no Nordeste. Os Tabajaras fizeram uma aliança com os portugueses, que o
aprisionaram. No século XV houve uma guerra ou revolta, no qual ambos os lados
tiveram mortes e consequentemente, uma perda considerável de seus povos.
Aqueles Tabajaras sobreviventes fogem pelo Rio Paraíba e encontram-se com o
povo Potiguara. Aliam-se e atacam o forte de Itamaracá. Houve uma briga
interna, que fez com que os povos Tabajaras e Potiguaras se separassem e
delimitassem seus territórios. Novamente, os dois povos juntam força contra os
portugueses, em mais uma revolta. Por volta de 2000 Tabajaras foram mortos
nesse momento. Como se não bastasse, a família de Frederico Lundgren submeteu
os índios em um processo de exploração, tortura e morte, especialmente aqueles
que eram identificados como indígenas. Eles eram obrigados a negar sua origem e
se assumirem como “caboclos”, caso desejasse sobreviver a ira da família
“fascista” que reinava no viés econômico local.
Resumidamente a
história do Cacique Ednaldo é o abandono de um sonho, e a busca por outro.
Antigos membros da comunidade Tabajara haviam profetizado que um jovem viria
reivindicar suas origens e assim unir o povo Tabajara que encontrava-se nas
sombras, devido aos 150 anos silenciados, e agora os Tabajaras lutam por seu
reconhecimento, que só foi possível quando o cacique Ednaldo teve contato com a
profecia: ele deixaria de ser jogador de futebol para lutar pelo direito a voz
de seu povo. Tudo começa em 1920, no Sítio dos Caboclos e do Bode, foi o local
onde nascera os avós de alguns dos membros da Aldeia de Vitória. O tio de
Carlinhos da Barra profetizou que apareceria um jovem que faria ressurgir os
direitos dos Tabajaras. Depois de 50 anos nasceu o Ednaldo. O pai do cacique se
mudara para Maceió e ele ficou lá, mesmo quando seu pai decide voltar para a
Paraíba. Logo seu esforço dedicado a sua paixão pelo o futebol, fez com que uma
seleção portuguesa fizesse uma proposta tentadora, assim que passou no teste de
tal seleção estrangeira.
Quando tomou
conhecimento desta história, e por meio de seu tio que insistentemente o
identificou como aquele jovem da profecia, em sua mente, ele sentiu-se chamado
a realizar tal feito. Em 21 de junho de 2006, o jovem Ednaldo saiu em busca de
uma documentação histórica que atestasse suas palavras, e isso durou um ano. “A palavra de um homem não vale nada, tem
que ser documentado”, diz o cacique. Agora, segundo expressa o próprio
cacique era “o ano de juntar força com
outros parceiros para descobrir onde estava o povo Tabajara”. A comunicação
boca-a-boca na finalidade de espalhar que a profecia de fato estava
acontecendo, fez com que emergisse cada vez mais o povo vivido nas sombras. E
aquele que chegava em dúvida quanto a sua identidade, era indagado por Ednaldo
da seguinte forma: “Quem é você? Você é
índio! (...) Eu sou o que você não conhece de sua história!” Não poderia
deixar de ser diferente o choque. Possivelmente na mente daqueles que eram
chamados a se assumir como índio, o pensamento de agora era: “Eu posso dizer
quem eu sou realmente?”. Era notável que ainda era traumatizante assumir-se
devido às experiências de outrora, que habitam o imaginário real da vivência de
muitos desses indivíduos, que agora viviam nas periferias de João Pessoa, a
mercê de outras formas de escravidão como a violência e as drogas, como fora
relatado anteriormente pelo cacique Carlinhos. Agora a luta por uma terra que
era sua e que lhe fora roubada, seria o próximo passo para o povo Tabajara.
Outro sonho também do
cacique Ednaldo e com certeza de todos os indígenas Tabajaras, é que sua
História fosse conhecida não só em toda Paraíba, mas no Brasil e no mundo, como
sinônimo de resistência e de esperança. Alguns livros inéditos foram lançados
por professores e pesquisadores que mantiveram e mantém contato até hoje com os
Tabajaras, que abordam várias temáticas de sua cultura, se tornando referencial
primordial quando se trata do estudo apurado, conciso e real da história do
povo Tabajara. O cacique Ednaldo aponta-nos para uma mesa improvisada, na qual
estão dispostos os livros em questão e artesanatos de sua comunidade.
Sendo indagado por
alguns de nossos colegas que estavam curiosos acerca de algumas questões que
envolvem política, educação, saúde, cultura, religião, o cacique e um jovem em
especial responderam a esses questionamentos. O cacique reforça que há ainda
muita luta, especialmente sobre a terra, vista que aquela na qual vivem foi uma
doação da fábrica, que só foi aceita pelo mesmo, para que fosse evitado novas
brigas e fragmentasse ainda mais o povo Tabajara que estava reunido após dez
anos de buscas. Essa luta pela terra, de certa forma, pode remeter ao que ele
mesmo enfatizou: “A Terra Prometida é o sonho do povo Tabajara que enfrentou
dificuldades”, diz o líder da Aldeia de Vitória. Além disso, faltam
políticas públicas, falta o colégio indígena, e o reconhecimento do povo
paraibano, que ainda está cheio de uma ótica estereotipada.
Sobre o Toré, também
muito aguardado por mim e por meus colegas presentes, o cacique disse que só
“dançava” quando estava feliz, com problema, ou quando sentia em sintonia com
uma espécie de energia da turma que o visitara. Por fim, ele agradece nossa
visita, visto que não tínhamos mais perguntas a serem feitas. Fomos comprar
algumas peças do artesanato local e compartilhar do lanche que trouxemos, além
de tirar fotos (que estarão inclusas no artigo final da disciplina, além de
detalhes bibliográficos mais profundos da história do povo Tabajara).
Posteriormente, voltamos para a Universidade Federal da Paraíba, conversando
sobre algumas de nossas impressões (que seriam mais detalhadas na aula de
amanhã) e também pedindo a quem descesse nas paradas antes de chegar na UFPB,
que trouxesse um lanche para o café da manhã, como uma forma de brincadeira.
Tenho certeza de que este dia (bem, esta noite) não poderia ter sido tão mágico
como fora.
A nota da avaliação de hoje foi dez,
pois senti uma euforia pelo momento especial de hoje (meus 30 anos), pelas
pessoas com quem convivia (colegas, professor), pela experiência cheia de boas
expectativas sobre visitar uma aldeia indígena, e sobre a oportunidade de
conhecer a História deles, por meio de vozes inaudíveis em dados tempos, que
agora ressoam em nossas mentes.
5º dia: 30 de setembro de 2016
Cheguei
um pouco atrasada na aula de hoje. Assim que entrei, todos estavam em círculos.
Foi pedido que quem quisesse, manifesta-se alguma dinâmica na qual envolvesse a
espiritualidade, como foi apresentado em seguida: variados tipos de
cumprimentos/saudações em diferentes partes do mundo; a do balão ligado aos
nossos sonhos; diferentes tipos de abraços e mais outra que não me recordo. Eu
notei certa evolução na minha forma de abraçar, visto que eu já tinha falado
anteriormente que eu tinha vergonha e timidez de manifestar tal gesto, mas na
dinâmica do balão, houve um travamento, inerente a minha incapacidade de encher
uma bola (isso me acompanha desde a
infância, eu ainda não aprendi a evoluir neste aspecto). Contudo, foram
dinâmicas bacanas. Em seguida, foi pedido que apresentássemos o nosso
posicionamento diante das impressões pessoais sobre a visita nas duas aldeias
do povo Tabajara, onde cada um foi colocando as suas visões baseado em prós e
contras, revelando até detalhes jamais ditos, como a questão de que no ritual
do Toré, na composição de suas músicas, o cacique Carlinhos afirmou que estar
puro e limpo diz respeito também a ausência do sexo, o que deixou-nos chocados
com aquela revelação somente a um membro do grupo. Possivelmente houve alguma
espécie de barreira ou travamento imposta indiretamente por nós, que
impossibilitou que Carlinhos se sentisse a vontade para manifestar tal
compartilhamento de informação, segundo as palavras do professor Lusival.
Foi perguntado acerca
dos nossos ritos, onde cada um expressou o seu. Consequentemente o meu, tem
relação com o mundo católico do qual faço parte. Foi feito um balanço da
disciplina e do professor, que humildemente aceitou sugestões para uma próxima vez
em que ministrar tal disciplina, na qual, foi pedido a antecipação do e-mail
com as referências para que as leituras fossem feitas antes da aula, como uma
forma de maior interação diante dos temas e assuntos discutidos.
O professor
presenteou-me com um livro, referência para o artigo final, o que me deixou
bastante feliz por ter sido agraciada com tal conhecimento que este livro irá
proporcionar-me, não só como objeto de reflexão para a composição do artigo,
mas como um contato direto com uma cultura tão rica como as dos indígenas. Além
disso, o professor pediu que uma colega dissesse um número de 1 a 18.
Escolhendo o número 18, foi a vez de Aldenir receber um exemplar de outro livro
voltado a temática indígena, o que deixou-a bastante feliz também.
E o que mais me marcou
foi a surpresa que estava sendo preparada na sala ao lado. Não pelo parabéns em
cantoria, bolo, refrigerante e sim a presença de todos em um voto sincero de
paz, amor e felicidade para com a minha pessoa. Não poderia antes de apagar a velinha
que simbolizava 30 anos de vida, fazer um desejo coletivo: que todos nós
conseguíssemos realizar nossos sonhos.
A nota da avaliação de hoje foi dez.
Encerramos um ciclo mais convicto em nossa missão, que se estende aos birôs
como pesquisador ou cientista, mas sim de ações que promovam a diferença,
sempre lembrando do resgate de nossa espiritualidade, independente desta ter
ligação a algo religioso ou não, como fortalecimento de nossas essências na
busca por uma forma de transcendência, na qual sejamos luz para o mundo ainda
envolto em trevas.
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