“Selene, não foi sua culpa, você...”
“Mas eu não me conformo. Tentei durante todos esses
anos, esquecê-lo, mas não consegui. Eu me sinto agora como se fosse aquela
garotinha de 13 anos atrás...”
“Selene,
venha aqui!” E Dimmy abraçou Selene, envolvendo em sua camada invisível de
conforto, uma alma que necessitava de um abrigo, de proteção, de um rio para
fazer correr suas águas (que neste caso seria um rio para fazer correr as suas lágrimas).
E eu? Já estava ficando muito preocupada porque as horas passavam rapidamente e
nenhum deles retornava. Eu fui até o quarto de Mazareth, que ainda estava
acordada.
“Olha mãe, eu acabei de falar com Selene e ela está
voltando. Ela já esfriou sua cabeça. Aproveite o tempo e procure dormir, porque
a senhora está com uma cara de cansada... Além disso, eu também vou dormir,
porque amanhã tenho prova e eu não posso chegar atrasada”. Eu tive que inventar uma pequena mentirinha, pois
estava preocupada com a saúde de minha velha mãe Mazareth. Fechei a porta do
quarto dela cuidadosamente e mais cuidadosamente ainda foram os meus passos
para fechar a porta de entrada da casa e sair a procura dos dois. A pressa era
tão grande, que não notei passos de estranhos no meu encalce, enquanto eu
andava pelas ruas de Tóquio, tentando imaginar o lugar onde Selene e Dimmy
estariam. Será que os dois estavam na casa da mãe dele? Era uma boa opção a ser
investigada, presumi.
Já se passava mais de 11 horas da
noite e eu no desespero, nem percebi que estava tarde demais. E para piorar,
fiquei meio desorientada sobre a rua da casa de Dimmy. Fazia pouco tempo que
ele tinha se mudado, pois a nova localidade onde ele mora agora fica mais
próxima da faculdade. De repente, fui surpreendida por quatro bêbados que
estavam em um beco sombrio. Um deles, o mais magro e alto, de aparência
assustadora, começou a ser aproximar de mim.
“O
que é que isso? Olha só a bonequinha que apareceu? Por acaso não sabe o caminho
de casa? Venha aqui, eu vou te mostrar!” E foi se aproximando de mim e
esticando seus braços em minha direção.
“Yahiksu,
falando assim você só vai deixar a garota mais assustada do que ela já tá! Olha
princesinha ninguém aqui vai fazer nenhum mal a você, é só você me passar esse
medalhão, está bem?”
“Me
deixe em paz.” Essas palavras saíram mais trêmulas do que os movimentos do
meu próprio corpo. Esse medalhão era importante pra mim, e num ato de
desespero, eu tentei dar passos com a finalidade de me manter afastada dos
meliantes. Na verdade, meus passos desorientados pareciam com um equilibrista
bêbado em sua corda bamba tentando caminhar de um lado para o outro, mas sem
noção da queda que lhe aguardava.
“Olha só, se você não entregar pro tio o colar, você
vai ver como é...”
“Isso não são modos de falar com a princesinha!” Eu só pude
fechar meus olhos e me envolver em uma bolha. Foi nesse momento que, em que tal
voz fez com que eu ficasse mais temerosa, que ao abrir meus olhos, me vi
cercada pelos meliantes. O mais forte me segurou, enquanto o mais atrevido
Yahiksu, começou a passar a mão em meu rosto, em minha boca, em meu pescoço. O
mais baixo colocou a mão na minha boca para eu não gritar. Eu já não sabia mais
o que fazer. Eu tentava gritar, tentava bater naqueles homens, eu chamava em pensamento
por Selene e Dimmy, pensei até em mestre Ninkal. O que eu faço? Alguém me
ajude!
Em meio a todo
esse acontecimento, surge do final do beco um homem diferente. Ele era alto, forte, de pele branco-gelo, seus olhos
azuis brilhavam em direção aos meus, seus cabelos loiros e luminosos
contrastavam com a escuridão da noite. Ele caminhava lentamente com uma
graciosidade impecável, enquanto estralava os dedos de suas mãos com um raiva
que transparecia em seu rosto. Eu pensei comigo mesma: Seria ele o líder dessa
gangue de bêbados devassos?
“Esses não são modos de tratar uma dama? Ou foi
princesa, que você acabou de dizer há pouco tempo? Eu sugiro que vocês se
afastem dela imediatamente.”
“Ou senão o que vai acontecer com a gente?” O Yahiksu logo
respondeu, enquanto me largava contra a parede, e caminhava em direção ao
desconhecido, com uma garrafa de cerveja e uma faca.
“Ou senão vocês todos irão morrer!” A partir
daquele momento, eu soube que esse desconhecido não pertencia ao bando de
ladrões e que ele estava disposto a me ajudar.
“Ei
caras, vamos dar uma lição nesse rapaz que se acha o tal! Ele pensa que sozinho
pode lutar contra nós quatro, que somos muito mais fortes do que ele.” Eu
não tinha pernas para correr. Somente olhos para assistir o que veria a seguir.
O sangue fluía de cima para baixo, de baixo para cima, parecia que minha cabeça
estava prestes a explodir, meu coração acelerado sempre querendo sair pela
boca, enquanto eu enchia meus pulmões de ar e tentava ficar viva por mais um
instante.
Aquele
desconhecido era muito hábil. Os caras circularam o rapaz misterioso e
avançaram como cães ferozes, com suas armas empunhadas em suas mãos, e sem
hesitar, atacaram de uma só vez. Eu fechei meus olhos para não ver a morte do
rapaz. Mas ele, em questões de segundos, conseguiu derrubá-los num movimento
único e mortal. Ele foi até piedoso e poupou as vidas deles.
“Que
isto lhe sirva de lição para nunca mais tentar fazer nada de mal contra
qualquer pessoa, bando de bêbados imundos.”
Eu olhei aquele
rapaz misterioso com olhares assustados. Ele cariciou o meu rosto frio e quase
sem expressão (a não ser de medo) e me levantou do chão.
“Você está bem? Eles fizeram algo...”
“Eu estou bem, só um pouco assustada. Obrigado por
ter me ajudado. Qual é seu nome?” Na verdade, eu tinha que saber o nome
da pessoa encantadora que me salvou das mãos daqueles homens.
“Me
chamo Kasuro e pelo visto, sua beleza não mudou nada desde 15 anos atrás. Você
continua com os mesmos olhos verdes e inocentes,
com a pele tão branca quanto o céu no dia de inverno, esses cabelos ruivos que
me recorda muito a sua mãe e lábios tão vermelho quanto o sangue que corre em
minhas veias. Volte agora mesmo para casa e não se preocupe com sua
irmã, com certeza ela está bem.” Ele rapidamente beijou minha testa, e com
a mesma rapidez arrancou do meu pescoço o meu medalhão e desapareceu numa
fração de segundos.
O que aquele homem queria de verdade?
Tudo que ele queria era também me roubar? Com eu sou tão tola? Fui enganada por
só mais um rostinho bonito. Eu voltei para casa completamente triste, pois aquele
tinha sido o meu pior aniversário. O que mais podia acontecer? Eu não pude
conter as lágrimas, e ao chegar em casa fui direto ao meu quarto e chorei
bastante.
Algumas horas se
passaram, eu já estava dormindo. Selene me vigiava com
aqueles olhos negros e pedintes, com seus longos cabelos pretos e cacheados que
faziam cócegas no meu pescoço. Ela tinha voltado para casa. Eu fiquei
muito feliz, apesar do tremendo susto.
“Você hoje vai ter que me desculpar
duas vezes. Primeiro, por ter sido um pouquinho arrogante bem no dia do seu
aniversário... E segundo, por eu ter lhe assustado, quer dizer eu não sou assim
tão feia pra você ter medo de mim, eu não sou nem o bicho-papão?” Sempre
fazendo piadas quando estava de bom humor. Isso era um bom sinal, mas e se ela
adivinhasse o que aconteceu comigo? Que o medalhão que eu acabara de ganhar, eu
perdera por incompetência e por acreditar em um salvador-desconhecido? Tiver
que desconversar, para que as prováveis lágrimas que começavam a se formar em
meus olhos, denunciasse meu crime.
“Você está desculpada. E o Dimmy? Cadê ele?”
“Já está em casa, dormindo como um anjinho. E pelo
visto a Mazareth também dorme, ou seja, ronca como um anjinho.”
Pois então, boa noite irmã. E comecei
a chorar. Tarde demais com o plano de ocultação.
“O que raios aconteceu? Não está feliz com o meu
retorno? Eu posso simplesmente sumir de vez, como todo mundo, né?”
“Não é nada disso. É que ontem à noite quando você
saiu com raiva e quando passaram as horas e nem você ou o Dimmy deram notícias,
eu resolvi ir atrás de vocês. Eu pensei que vocês estavam na casa da mãe dele. Uns
caras me perseguiram até um beco sem saída e de repente surgiu um rapaz que me
salvou daqueles caras, mas em compensação roubou meu medalhão.”
“Ok.
Eu preciso de um drink duplo. Fala sério! Roubarão teu medalhão? Oh, Sahui,
desculpa aí... Eu causei tanto mal a você, né? Mas eu prometo que vou achar
esse ladrãozinho e ele vai me pagar. Eu juro!”
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