“Tudo bem, eu já entendi. Eu estou sobrando aqui. Eu
vou dar uma volta sozinha, correndo o risco de ser assaltada ou morta, e você
fica ai, com aquele ‘homem’. Aproveito e vou vomitar um pouquinho, ok?” Selene, na
verdade cuspia as palavras, com um olhar que dizia: você me paga, sua
mentirosa. Eu me levantei
assustada, o encarei por pouco tempo (não pude lutar contra aquele olhar, eu
queria me entregar naquele rio de águas límpidas) e limpei minha garganta. Já
era a hora de alguém começara a falar. E eu decidi começar a falar assim que
notei o distanciamento de Selene:
Um vendedor de bolinhos da
sorte passou por nós. Ele se levantou e comprou dois bolinhos, me oferecendo,
em seguida.
“Não estou interessada em comer. Eu tenho pouco tempo aqui. Na verdade,
nem sei o que estou fazendo aqui. Que tipo de poder você possui, Kasuro? Alguma
arma de sedução barata para garotas? Eu quero que você me conte o motivo de eu
estar aqui. Não tente me enrolar mais. Por favor, diga logo o que você quer e
me deixe em paz. Quem é você? Porque me vigia? Porque roubou meu medalhão?
Porque disse que salvou minha mãe adotiva?” Metralhei as perguntas, sem
olhar para aqueles lindos olhos.
“São muitas perguntas feitas para serem respondidas em pouco tempo. Você
e sua irmã são pessoas muito impacientes, sabia? Isso não é uma dádiva para uma
princesa... Bem, para uma deusa. Me prometa pelo seu falecido pai adotivo,
mestre Ninkal, que você vai ouvir minha história até o fim, ok?”
Provavelmente ao colocar os seus dedos em seu lábios, como que para impedir que
eu manifestasse meu discurso de surpresa por saber que, de algum modo, conhecia
a minha vida, Kasuro teve a sua vontade aceita: apenas balancei minha cabeça,
esperando ouvir sua história: “Eu sou
Kasuro, irmão mais novo do rei de Tolios. Há muito tempo, Chaos, o filho da
Deusa–Mãe, tentou matá-la para conquistar o poder, mas tanto a Deusa–Mãe como
sua filha, a Deusa da Terra, antes de morrer, conseguiram aparentemente ‘matar’
Chaos. Muito tempo se passou desde o fato ocorrido, e há 15 anos atrás foi
anunciada em nosso reino uma profecia, na qual diz que a reencarnação de Chaos nascerá
em uma criança com uma tatuagem chamada de ‘A Chave Negra’, símbolo este, que
representa a destruição total do nosso reino. O rei, que na verdade é o seu pai
biológico, e casou-se com uma bela mulher chamada Shiara e depois de pouco
tempo você nasceu”.
“Meu verdadeiro pai?” Minhas palavras
foram interrompidas por ele, que gentilmente fez um sinal de silêncio. Como eu
poderia escutar essa história em silêncio, sem poder manifestar a minha opinião
(ou minha nota de repúdio quanto a essa loucura)? Mas eu prometi escutar, e eu
iria cumprir.
“Sua mãe morreu logo após o seu nascimento.
O rei percebeu o sinal em seu pescoço e ordenou a sua morte. Eu consegui
salvá-la e coloquei junto de você, um bilhete e o medalhão que sua mãe usava como
proteção contra qualquer mal. A anciã me deu vários livros antigos para que eu
pudesse decifrar os códigos da profecia. Não sei como ela conseguiu esses
livros. Muitos deles são datados de épocas distantes, realmente de tempos que
nenhum ser vivia em Tolios. Fugindo da morte eminente, assim que meu irmão
descobriu de minha traição, eu tive que viver aqui neste planeta chamado Terra.
Durante muitos anos, fiquei dividido entre duas missões: achar você e decifrar
esses códigos. Eu acho que a profecia da ‘pedra negra’ pode ser falsa, fruto de
uma conspiração contra o reino de Tolios”. Eu já estava passando mal com toda
essa história: uma parte de mim dizia para eu ficar e ouvir até o final e a
outra gritava por socorro. Eu não sabia mais o que fazer. Também pude notar que
a sombra de Selene continuava em pé, na esquina da praça com seus olhos fixos
em mim, que deixavam nítidos o sentimento de raiva, não porque eu supostamente
estava me encontrando com “meu namorado”, mas sim pelo o motivo de eu não ter
confiado a ela o meu segredo. Eu notei que o tempo passou depressa e que
realmente era hora de ir para casa.
“Olhe Kasuro, tudo isso é alucinante, senão louco. Eu preciso ir
embora. É muita coisa para assimilar e não sei se estou pronta para aceitar a
verdade: que nós enlouquecemos.”
“Você terá a prova de um pedaço de tudo que eu digo é verdade”. Ao
mesmo tempo que disse isso, ele me mostrou um desenho de um livro de aparência
envelhecida que ele carregava. “Analisando
alguns fatos relativos às traduções dos livros antigos eu pude perceber que na
antiga batalha de mãe e filho, o corpo de Chaos não foi achado, apesar de
muitos livros relatarem que a Deusa-Mãe havia o destruído, contudo esse livro
específico diz o contrário. Se ele sobreviveu, com certeza deve está numa
espécie de sono, enquanto recupera energia para voltar a vida.” Quando me
aproximei para ver o símbolo, semelhante ao meu sinal tatuado no pescoço, eu
entrei num transe. Eu não sabia se era realidade ou ficção o que eu estava
vendo: uma mulher alta e bonita na minha frente sangrando e estávamos ligadas
por uma flecha que também tinha me transpassado o peito. Eu estava sangrando e
olhava fixamente com remorso e terror pela atitude que aquele lindo rapaz
acabara feito. Seria ele Chaos? O rosto perfeito,
olhos acinzentados, cabelos curtos e lisos da cor da escuridão, pele branca com
a neve. Em seus olhos, poder e glória traçavam planos inimagináveis em sua
mente. Ele olhou para mim e deu um sorriso infantil, com um detalhe sombrio. E
seus olhos foram fechados assim como os meus. Só acordei com os gritos de
Kasuro:
“Sahui, Sahui você está bem? O que aconteceu, querida?”
“Sim... Eu só vi um parte de um passado
sombrio... Guerra, morte e dor. Mãe e filho dando adeus para o mundo. Olhe
Kasuro, eu nem sei mais quem eu sou.
A cada hora parece que o meu juízo perfeito está desaparecendo. Eu acho que comecei
a acreditar nessa história, afinal de contas eu sabia que minha vida era
rodeada de mistérios”.
“Estou pronto para esclarecer grande parte deles. E saiba que tudo isso
também diz respeito a sua irmã, a pequena deusa de sentimento rebelde. Eu vi o
símbolo que sua irmã carrega. O seu significa Elemen, o nome antigo de Chaos e
o de sua irmã é o símbolo da Deusa da Terra.” Essa declaração revirou o meu
estômago. Até agora não tinha caído a ficha de que Selene estava envolvida
nessa história! Na verdade, eu sempre desconfiei que nós tínhamos uma ligação
diferente, que não pertencia a esta vida, e sim a outra vida muito distante. Contudo,
ser reencarnações de deuses de um Reino desconhecido neste universo que
vivemos? Isso me deixou muito mais desnorteada.
FUTURAMENTE TEREMOS NOVIDADES SOBRE ESTE LIVRO ;)
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