“Eu sou o Anjo da visão dela. Eu não usaria o nome “Anjo”, neste caso,
mas ela é livre para se expressar do jeito que julgar necessário. O fato é que
eu curei a sua mãe adotiva. Eu só queria que você soubesse disso, quer dizer,
ainda tenho muito mais para te contar, mas vejo que não é o momento ideal. Você
não está emocionalmente preparada para ouvir.” Ele beijou minha testa e
fechei meus olhos. Parece que ao sair, ele levou consigo o meu coração. Eu
apertei meu peito para sentir se ele ainda estava no lugar. A única opção que
restou foi entrar em casa, tendo a certeza de que um pedaço do meu coração
acabara de ser roubado por Kasuro.
“Sahui, onde está o seu amigo da escola? Diga a ele que o almoço já
está servido.”
“Ele
estava muito apressado e teve que ir, mas ele agradeceu o convite.” Nem preciso
dizer que a comida desceu rasgando minha garganta. Sabe quando você quer chorar
e fica engolindo o choro? Ele rasga completamente seu interior, corroendo tudo.
Eu não sabia por que, mais eu precisava me encontrar com Kasuro novamente. Onde
eu o encontraria? Ele não deixou nenhum endereço, nada que pudesse me dar
pistas do seu esconderijo.
Selene chegou com Dimmy da faculdade.
Eles falaram comigo, mas eu não respondi, pois estava no meu mundo da lua,
pensando sobre o que Kasuro quis dizer com
“Eu curei sua mãe adotiva”. Eles foram almoçar e fazer um trabalho juntos. Decidi
descansar em meu quarto, e fui surpreendida com o que estava no meio do lençol
da minha cama: tinha um bilhete, num papel cor de prata e uma rosa vermelha.
“Querida Sahui, precisamos conversar o mais
rápido possível. Não há tempo a perder. Me encontre no Kitanomaru Park próximo ao Palácio Imperial de Tóquio. Estarei te
esperando. Assinado: Kasuro.”
Eu
nem pensei duas vezes: eu tinha que vê-lo. Na verdade já era um desejo insano
mesmo. Então a única coisa que pude fazer foi esperar o tempo passar e que
todos estivessem em sono profundo para que eu pudesse escapar.
Para a minha sorte, hoje Mazareth
e Selene resolveram dormir cedo. Foi isso que eu pensei, a princípio. Desci as
escadas silenciosamente e quando eu estava fechando a porta, eu me tremi dos
pés a cabeça com a voz que eu acabara de ouvir:
“Ora, ora, ora. Que isso Sahui? A boa menina agora está saindo às escondidas?
Você pensava em ir aonde sozinha numa hora dessas?”
“Que
susto você me deu, Selene. Eu preciso conversar com uma pessoa. Eu preciso entender
uma história”.
Eu disse a verdade, em partes, omitindo de fato, que era a pessoa: o ladrão do
medalhão.
“Não sei... Isso está me cheirando a um rapaz... Quem sabe pode ser um
namoradinho, não é? Nossa! Só pode ser!” Enquanto começava a rir com suas
formulações, eu pensava o que ela poderia achar da figura de Kasuro se eu
dissesse quem é ele na realidade... Talvez Selene pensasse que eu estava
louca... Ou que ele é muito mais velho que eu, além de ser um marginal, um ladrãozinho
de quinta categoria, um idiota que não soube aproveitar a vida honestamente. Na
verdade, eu nem sabia que tipo de instinto ou sentimentos me motivava a tal
loucura: a de me encontrar com uma pessoa assim.
“Não importa. Eu vou com você. Vai que
acontece outro roubo, não é?”
No caminho do Kitanomaru
Park, eu sentia o incômodo da presença de Selene, que não parava de
tagarelar sobre o quanto a irmandade hoje em dia não vale, só porque eu não
confiei nela para contar que estava namorando. Eu comecei a olhar para o céu,
que estava muito iluminado. As estrelas brilhavam como se fossem os olhos
daquele desconhecido Kasuro. Selene foi
logo comprar um lanche e dei graças a Deus por isso. Só assim, comendo, é que
Selene ficava quieta.
As pessoas passavam de um lado
ao outro, e em cada uma delas, eu procurava encontrar o rosto de Kasuro. As
horas vagarosamente martelavam o meu coração, e eu já estava pensando em ir
embora. Selene já estava meio adormecida, quando de repente eu avisto caminhar
entre novas pessoas, o desconhecido que eu esperava.
Kasuro
estava irradiante. Algo me dizia que ele estava divino! Selene despertou de sua
sonolência e seu olhar foi de admiração e espanto. Ela olhou para mim incrédula.
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