Capítulo 10: Noite de Halloween- parte 2

A fogueira também condenou muitos inocentes, mas em grande número, culpados pagaram pelo mal que fizeram em vida, diga-se de passagem. Há uma magia única que se desdobrou em várias. Em cada caminho que escolher, o usuário atrai para si as consequências e fardos, de muitas vezes, mexer com o obscuro. Deve estar ciente de que tudo tem um limite e um preço ao decidir ultrapassar as barreiras. 

Com certeza quem pagou também foi a bruxa Samantha Romansky. Quando a serpente que lhe dera o poder mágico fora aprisionada pelo místico caçador de bruxas, Thompson Caugtylly. Com isso, os poderes de Samatha Romansky desapareceram. Contudo, notando esse perigo, sua subordinada, que para mim estava claro que fora Kassandra Kustkry, prendeu o espírito da bruxa em um espelho. Ao longo da história, mina família provavelmente mudou o sobrenome ou de fato não soube que era a geração maldita a carregar o mal.

Thompson queimou o corpo, mas o espírito da bruxa e boa parte de seus poderes estavam a salvo. Kassandra fugira e nunca encontrara a filha que sua mestra havia lhe falado. Com a morte de Kassandra, anos depois do período de caça às bruxas, o espelho encontrou a família que adotara a filha de Samantha, ou seja, sua legítima dona. E logo, a sua geração retornou ao lar de sua matriarca. 

De geração a geração foi passado, até que chegou em minhas mãos. Agora, creio que a força completa de Samantha foi restaurada com os sacrifícios de meus amigos, que deviam ter em seu passado, uma ligação com a morte dessa bruxa. 

"Excelente raciocínio, garota! Você libertou a minha amanda Samantha ao quebrar o espelho de seu quarto antes de vir ao seu verdadeiro lar. Quem você pensa que matou os seus amigos? Eu? Um fantasma? Uma simples aparição sem corpo? Ou foi você, que carrega no sangue a assinatura, a marca da bruxa?", disse Kassandra para mim.

Eu me neguei a acreditar. Mas, um flashback de tudo veio à tona: A primeira morte, a de Marrie, eu ordenei a uma cobra que se enroscasse em seu corpo, enquanto recitava algo até então indecifrável pra mim e a marcava com a lâmina de minha adaga... sabemos que a cobra a picou e ela morreu... Paul foi a segunda vítima: eu havia preparado as armadilhas por boa parte do local em que estávamos, dias atrás. Na verdade, quem morresse nessa armadilha seria lucro pra mim. Eu encantei aquela armadilha para fazer a pessoa sangrar até a morte. E Tom? Enquanto ele tentava libertar o amigo, eu o distraí com essa história de vulto da Kassandra e acertei sua cabeça com uma pedra. Retornei ao meu lar com a certeza de que minha ira iria reinar nessa cidade, assim que tivesse por completo o meu poder. 

Eu lutei para não deixar Samantha se apossar de meu corpo. Me debati, contorcendo-me no chão de dor, e com raiva por tudo de ruim que ela fizera com meus amigos, especialmente ao homem que eu amava: Tom. 

Fomos interrompidas com a porta que abriu-se abruptamente. Tom estava ensaguentado, mas vivo. Uma parte de mim ficou alegre por vê-lo. Essa era a hora de salvar meu amigo sincero e amor verdadeiro. Usei parte da força de Samantha para afastar o vulto de Kassandra. Por mais que Kassandra tivesse forças, Tom também vinha de uma linhagem de místicos. Havia uma tatuagem em seu peito com um símbolo de proteção, que pode ter evitado sua morte.

"Vou mandar essa bruxa pro lugar de onde ela nunca deveria ter saído: o inferno!", falou Tom. Kassandra havia voltado e jogava objetos em direção ao Tom, impedindo-o de entrar no recinto. Notei que até mesmo Samantha estava inquieta, haja vista eu ter ainda domínio de meu corpo. Se certa forma, ela fora apaixonada por Thompson, e Tom o lembrava bastante. Mas ela não podia morrer duas vezes. Não agora tão perto de ter Tom para si. Então esse era o plano? Deixara Tom vivo para envenená-lo com o mal, de alguma forma corrompê-lo? E posteriormente, "serem felizes para sempre"? Não! De forma alguma!

"Me perdoe, Tom!", disse. 

"Não faça isso, minha senhora, lute!", falou Kassandra que não podia se dividir em duas e me impedir do que eu estava prestes a fazer: comecei a recitar uma oração de exorcismo que aprendi na catequese, na época de criança... Eu não sabia se essa oração iria funcionar comigo, o próprio tabernáculo do mal. Mas não custava nada tentar...Enfiei a adaga em meu peito até ter a certeza de que ela havia perfurado o bastante. Me lembrei da transa que nunca aconteceu, mas foi a que eu mais sonhei. De Tom me abraçando, me beijando, me envolvendo e me fu$#@%&. Nada disso... Não fui merecedora de prêmio algum...

A morte chegou para mim como uma salvação. Se Kassandra tivesse alguma força, ela mataria Tom. Com certeza. Se ela estivesse ligada a mim, que possuo o espírito de sua mestra e amante, então ela morreu comigo. Eu devia pagar esse preço por matar os meus amigos.

Silêncio....


****

Uma mão quente tocou-me. E eu despertei. Era possível sentir o hálito de hortelã de Tom. É claro que era de alguma pastilha, creme dental ou enxaguante bucal para disfarçar o cheiro de cigarro. Estávamos no meu quarto. 

"Desculpe. Tive que arrombar a porta do quarto. Liguei inúmeras vezes e nada de você me atender. Toquei a campainha e decidir invadir a sua casa. Tive medo de que algo de ruim tivesse acontecido. E pelo visto você dormiu demais hoje, né?"

Olhei para o espelho. Ainda estava intacto no meu quarto.

"O que aconteceu? Onde estão Paul e Marrie? A gente estava na casa dela, da bruxa, na floresta, todos mortos!"

"Na verdade, você nem leu a mensagem de hoje que passei para seu celular: a gente tinha agendado pra hoje, mas você dormiu no ponto. Vendo agora, entendo o motivo do atraso. Você deve ter desmaiado. Paul quebrou a perna hoje de manhã e Marrie foi ficar com ele no hospital. No final, eu conversei com eles e resolvemos deixar pra lá essas maluquices de ir a floresta na noite do halloween, por isso fique tranquila, ok?"

Na verdade eu estava confusa com tudo. Então, fora um pesadelo? Suspirei aliviada e não fiquei em paz até que eu joguei no lixo o espelho antigo, mesmo Tom achando que eu estava ficando louca. Quem iria ficar louca seria minha mãe, mas não queria nada que me fizesse lembrar desta angústia que vivi. Fui me certificar no hospital que meus amigos estavam bem. Eu os abracei como se a gente não tivesse se visto há muito tempo atrás. 

"Calma, Beka. Seu odioso amigo apenas quebrou a perna. Só isso...", disse Paul. 

"Não diga isso nem de brincadeira, seu tonto! E você, Marrie... Já disse que te amo, patricinha?". 

"Eu também, Beka. Mas não te quero pra sexo a três. Caí fora!" 

"Eu acho que Marrie esconde uma fantasia secreta com Beka", disse Tom. Por mais que eu ficasse vermelha, nós rimos muito, até que a médica entrou.

"Ora, ora. Esse quarto está super lotado, vocês não acham isso?", falou tal médica.

"Ei, Beka e Tom. Eu gostaria de apresentar a minha prima que chegou na cidade e vai trabalhar neste hospital a partir de hoje", mas Paul foi interrompido em sua fala.

"Calma, primo. Eu tenho boca e posso falar: olá Rebeka. Me chamo Kassandra Milloswki. Que cicatriz interessante essa do seu pulso!"

Fim?




Cuide da Minha Memória
Sentindo-se vazio, as lágrimas em meus olhos
Pensamentos confusos que tentam
Interferir com a minha vontade de continuar
Chegou a hora para mim
Para ser um eterno
Atemporal, inocente, calmo
Meu navio está chamando

Converse comigo, fale comigo
Conte-me a sua história
Olhe para mim, me assista
Veja e observe

Lembre-se de mim, pense em mim
Imagine-me, nunca nunca me esqueça
Cuide da minha memória

Venha para mim, espere por mim
Diga-me a sua história
Olhe para mim, me assista
Veja e observe

Lembre-se de mim, pense em mim
Imagine-me, nunca nunca me esqueça
Cuide da minha memória

No meu cabelo eu senti mil sóis
Mil nuvens me manteve quente
E levou-me pelo céu
Eu finalmente tenho o sinal

As luzes de almas
Está brilhando como ouro
Tempestade está a aumentar, a calma se foi
Meu navio está navegando

Converse comigo, fale comigo
Conte-me a sua história
Olhe para mim, me assista
Veja e observe

Lembre-se de mim, pense em mim
Imagine-me, nunca nunca me esqueça
Cuide da minha memória

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