Contudo, não podemos
deixar de lado outro discurso, no qual a mulher tinha papel de destaque na
sociedade, nos cultos que constituíram força e poder do feminino
diante daqueles povos antigos.
Consequentemente, sofreu abalos, momentos e
transições, em que houve não só uma substituição, mas uma luta constante para
enfatizar e deixar registrado na história, um fazer feminino que gerasse medo,
dúvidas e que fosse, muitas vezes, aliado ou marcado como expressão de uma
força chamada mal.
Numa
sociedade agrícola, a mulher converte-se em deusa, mas isso não indica seu status
superior: pelo contrário, indica, além disso, retificação de sua alteridade.
Como Deusa, Natureza, Terra, ela era o "outro" de que os homens
dependiam, e o temor religioso deles apenas exprimia sua impotência. Quando os
homens começaram a sentir seu poder e a possibilidade de ultrapassagem e
domínio, as deusas femininas foram superadas. Essa mudança para um deus
masculino foi, argumentava Beauvoir, um estágio necessário no desenvolvimento
humano. Deus devia mudar: da "Outra" natureza ingovernável para a
verdadeira "semelhança" do homem, um deus poderoso, voluntarioso, castigador,
exprimindo o princípio masculino da "luz, inteligência, ordem" (NYE,
1995, p. 107).
Não
só esse detalhe, mas a rapidez e a força com que esse discurso era reproduzido,
imprimiu em várias civilizações e culturas esse lado de temor ao feminino.
Com
Lilith, esse medo foi levado ao máximo de seu expoente, na Idade Média, na qual
tal mulher-demônio era uma “inimiga do matrimônio e da maternidade, os dois
únicos papéis sociais reservados a mulher durante séculos” (SILVA, 2012, p.
13).
A essa personagem mitológica fora atribuída a responsabilidade pelas
dificuldades que regiam a maternidade, tais como nascimento de crianças com
algum tipo de deficiência, dores, sangramento, aborto, etc (SILVA, 2012), o que
nos recorda também dos papéis da maioria das mulheres naquela sociedade, que
moldavam suas vidas em prol do casamento, filhos e religião.
Trazendo
as discussões do feminismo, apresentamos como esse discurso de uma Lilith nefasta tomou outro rumo, a
partir de outras interpretações de sua história e de como ela pode ensinar às
mulheres atuais (por meio do discurso de igualdade de gênero e superação de
seus medos e traumas) a acreditar ainda mais em si mesmas e no seu potencial de
desafiar e conquistar novos horizontes.
Lembramos, que antes mesmo de Lilith
ser aclamada no movimento feminista, foi no Romantismo (XVIII e XIX) onde ela
se tornou musa em poesias, romances e pinturas, realçando sua dualidade
envolvente no ente romântico.
No século XX, mais provavelmente entre 1960 e
1970, Lilith ressurge no discurso feminista (LEWIS, 2012), trazendo em si, o
despertar feminino em discursos outrora de vozes taciturnas. O caráter de deusa
sagrada em Lilith, também é destaque nesse momento, segundo Biggs (2010).
Referências:
BIGGS, Mark Wayne. The Case of Lilith: 23 Biblical Evidences
Identifying the Serpent as Adam‘s First Wife in Genesis.
Samson Books, 2010.
LEWIS B. A, Rosa Marie. LILITH: The personification of
humanity‘s fears. The Gratuate School of Arts and Sciences:
Georgetown University. Washington D.C, 2012.
NYE, Andrea. Teoria Feminista e as Filosofias do Homem.
Tradução: Nathanael C. Caixeiro. Rio de Janeiro: Editora Rosa
dos Tempos, 1995.
SILVA, Alexander Meireles da. A REDENÇÃO DE LILITH: O
CORPO FEMININO COMO ESTRATÉGIA
TRANSGRESSORA NA FICÇÃO DE OCTAVIA E. BUTLER
In: MILANEZ, Nilton e GAMA-KHALIL, Marisa Martins
(Org). Literatura de Horror e Corpo. Revista Eletrônica de
Estudos do Discurso e do Corpo. Volume 1. Número 02.
Universidade Estadual do Sudoeste da Bahia. Vitória da
Conquista, Bahia, 2012.

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