Partimos agora para o campo da Literatura, que em certos contextos e momentos, “exerce [...]
uma sutil, mas poderosa função de desconstrução do real e do estabelecido”
(NOGUEIRA, 2015, p. 128). Na sua relação com formas religiosas de expressão, ao
contar sobre deuses, mundos e homens, essa literatura foi capaz de fazer surgir
“imagens poderosas sobre o mundo e sobre os deuses que criam uma rede poética
de imagens. Narrativas e metáforas se unem para formar as representações
labirínticas da linguagem da religião” (NOGUEIRA, 2015, p. 118).
Por meio dessa
discussão, somos apresentados à Octavia Estelle Butler, uma autora
afro-americana de ficção científica, de grande destaque oriundo de seus
escritos literários, que figura ao lado de grandes nomes no cenário da
literatura americana. Da cidade de Pasadena (Califórnia) para o mundo, a vida
literária de Octavia foi construída sob o alicerce de muitas lutas. A mesma
viveu uma infância, na qual, percebe as dificuldade e separações sociais, políticas
econômicas e profissionais dos negros, sempre em segundo plano, vítimas das
hostilidades e dos preconceitos, e isso criou um sentimento de inferioridade,
nos parentes da escritora, que ficaram chocados quando a mesma revelou, ainda
pequena, seu sonho de ser escritora: tal sonho, era mais alto para uma afro
americana na condição em que Octavia e sua família viviam (SILVA, 2012). Além
disso, esse mundo literário da ficção científica era notadamente um campo
disputado por célebres autores (homens) e raríssimas mulheres poderiam fazer
parte desse mundo.
Contudo, Octavia gosta de desafios. E desistir, mesmo no
mais profundo pessimismo, parecia não ser uma ação a ser cogitada. A
autora deu a volta por cima, encarou a vida de frente, lutou para sair da mesma
marginalidade imposta à Lilith, e assim como a figura que ela mesmo evoca das
tradições históricas, mitológicas e religiosas, o nome de Octavia
está em um mesmo patamar de tantos outros escritores de ficção cientifica a
nível mundial.
Especialmente
a personagem negra chamada Lilith, atuará em duas histórias: como uma vampira
em Fledgling (2005) e como uma humana
híbrida alienígena na trilogia Xenogenesis
(1986), obra esta objeto de análise.
Octavia
conquistou e ocupou um papel de destaque na literatura, e continuará presente
mesmo após ter partido desta jornada terrena (morreu em 2006), servindo de
exemplo, inspiração e sinônimo de luta, força, imaginação e de que o sonho pode
ser construído na nossa realidade pela superação, persistência, e passo a passo
conquistando além das estrelas, como gostava de se pronunciar (In: Site Locus Online, 2000).
Não há no gênero de ficção americana um nome de uma escritora afro-americana a
conquistar tantos prêmios, a adentrar em tantos espaços e públicos, com
histórias intrigantes, inspiradoras e que condizem com os anseios e dúvidas da
humanidade.
Sobre a autora e a
questão da literatura de ficção científica distópica, a relação de apropriação
de uma arte ocorre por meio de citações e
recriações, como a construção dos temas de um novo gênesis humano na obra a
ser analisada, a trilogia Xenogenesis
de Octavia Estelle Butler, que retomou os aspectos presentes de nossa
realidade, na roupagem do gênero literário ficção
científica e distopia. Sobre o
primeira, trouxemos para debate o que Barbosa et al afirmou:
[...] Ao contrário de diversos
outros gêneros, a FC (ficção científica) é diretamente ligada a problemáticas
tanto científico-tecnológicas quanto sócio-culturais, [...] o que produz uma realidade
literária que releva e metaforiza os problemas, fatos e fatores componentes da
realidade histórica (s/d, p. 04 e 05).
Já a distopia representou
uma forma de apresentação de um mito renovado no fazer
literário de Octavia, onde as características desse gênero demarcam a forma de
mundo apresentado, inserção de personagens marginais e subversivos, como
podemos ou não superar os problemas que conduzem a humanidade a destruir a si e
ao próximo. Seria uma forma sem esperanças de que as coisas possam
melhorar, pois como a própria autora diz o
homem não é perfeito, então como querer que o próximo e o mundo sejam perfeitos
(McCAFFERY;
McMENAMIN,
s/d)? Octavia parecia ser inclinada pelo campo sociobiológico e achava que
havia algo errado na genética do homem, que o conduzia aos comportamentos
hierárquicos e a utilização da inteligência como forma de dominar e matar, e
com certeza isso é bem distópico. Por mais que queira reconstruir o homem e o
mundo, há algo além dos limites da compreensão que o fará ser o construtor de
seu próprio destruir.
Quando tocamos no que
se referiu aos limites da interpretação
literária desta obra, a mesma poderia se encaixar perfeitamente em um papel
ousado: a de mitologia distópica,
onde destacamos certas características extraídas da própria mitologia em si,
pelo o que entendemos deste conceito: contar (ou recontar) o surgimento
(renascimento, recriação) de um cosmo/mundo/deuses/seres humanos/planeta
Terra/civilização, que nas páginas da trilogia Xenogenesis tal mundo fora recém restaurado, e agora conta com a
tentativa de convívio de uma raça humana, alienígena (Oankali) e híbrida (humanoankali),
que na medida do possível constroem os elementos de sua cultura, resgatando na
perspectiva dos humanos, um sistema religioso norteador de normas sociais,
morais e éticas que devem coexistir nesta nova tentativa de humanidade.
Antigas
sinas históricas, (que vão além de uma natureza religiosa, e sim uma natureza
humana) apontavam indícios de que nem todo recomeço, significa harmonia,
equilíbrio, fim das acirradas contradições humanas, onde esses mesmos erros do
passado permanecem novamente na tentativa de levar o fracasso do homem, onde é
claro tivemos o duelo de forças emblemáticas nítidas, na posição de certos humanos
e alienígenas, sobre o que cada um pensava ser o correto e o errado, o bem e o
mal, o justo e injusto, ao mesmo tempo, que ambas as raças pareciam não
perceber que a evolução final das espécies, em um nível de imortalidade terrena
e benefícios genéticos, parecem brotar do útero daquela que antes foi rebelde
em sua história mitológica e religiosa, e agora é a escolhida como pontapé
inicial desta cosmogonia renovada: a afro-americana Lilith Iyapo, personagem da trilogia Xenogenesis.
Referências:
BARBOSA, Denison Carlos Sousa, MALAFAIA, Rafael
Alexandrino e LIMA, Tailson Rodrigues de. Ficção Científica e
Cyberpunk: Uma breve introdução.
McCAFFERY, Larry e McMENAMIN, Jim. An interview with
Octavia Estelle Butler. In: Across the Wounded Galaxies (p. 54-
70).
NOGUEIRA, Paulo Augusto de Souza. Religião e Linguagem:
abordagens teóricas interdisciplinares. Coleção Sociologia e
Religião. São Paulo: Editora Paulus, 2015.
OCTAVIA BUTLER: Persistence. Publicado na Locus Magazine,
em junho de 2000. Site Locus Online.
SILVA, Alexander Meireles da. A REDENÇÃO DE LILITH: O
CORPO FEMININO COMO ESTRATÉGIA
TRANSGRESSORA NA FICÇÃO DE OCTAVIA E. BUTLER
In: MILANEZ, Nilton e GAMA-KHALIL, Marisa Martins
(Org). Literatura de Horror e Corpo. Revista Eletrônica de
Estudos do Discurso e do Corpo. Volume 1. Número 02.
Universidade Estadual do Sudoeste da Bahia. Vitória da
Conquista, Bahia, 2012.

0 Comentários